Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

“Não consigo compreender porque estás no Facebook”

O tema está na ordem do dia, parece que toda a gente acordou agora para os malefícios das redes sociais e foi com esta frase, não consigo perceber porque estás no Facebook, que a conversa começou.

Não vou discorrer sobre partilha de dados, sobre notícias falsas ou manipulação de dados e pessoas.  Vou falar um bocadinho sobre solidão.

Não me lixem, as redes sociais alimentam-se de solidão. Da solidão encapotada dos dias de hoje. É por isso que eu, que todos nós, estamos nas redes sociais.

É verdade que nas redes sociais fazemos amigos e que esses amigos saltam para a nossa vida. É verdade que as redes sociais têm imensas qualidades, permitem-nos ter acesso rápido a pessoas e conteúdos, a informação é-nos dada de bandeja, sem esforço ou limite. Para cada ponto negativo atribuído a uma rede social, eu arranjo-vos um positivo. E o contrário é também verdade.

Mas no final só vejo uma razão pela qual as redes sociais continuam e continuarão a proliferar: as redes sociais espantam a solidão e criam a ilusão de partilha, de amizade, de companheirismo.

Numa sociedade sem tempo útil, onde o perto se fez longe pelas vidas, onde cada vez é mais difícil combinar um café (apesar de termos todos carros à porta e haver esplanadas por todo o lado), onde é cada vez mais raro pegar no telefone só para conversar (apesar das chamadas serem de borla e todos termos um telefone connosco 24/7) ou enviar uma carta só porque sim (apesar do email ter tornado instantâneo essa comunicação) é através das redes sociais que a ilusão de “companhia” se faz.

Virtualmente temos centenas de amigos, milhares de conhecidos. Virtualmente “seguir” alguém deixou de ser considerado voyeurism para se tornar simpatia. As redes sociais permitiram que nos tornássemos naquilo que queremos ser: simpáticos, fofinhos, bullys, corajosos, sábios. Os likes e afins permitiram que nos sentíssemos aceites. E “pertencer” é tudo aquilo que a maioria de nós sempre quis.

Quando eu era miúda tinha o meu grupo de amigos, passava horas ao telefone (até que alguém cortava a chamada), sofria com a ausência, brincava na rua. Na adolescência passava o tempo no café, ficava na rua a conversar até sermos chamados para jantar.

O tempo, a segurança e tudo o mais que é prioritário impede que este contacto pessoal, tão importante, seja possível hoje em dia. E as redes sociais dão-nos uma falsa sensação de que isto ainda acontece.

Sim, o Facebook e as restantes redes sociais aproximam-nos dos outros.

Mas a verdadeira razão para que tanta gente se mantenha nas redes sociais é o medo que a ausência nos torne invisíveis. Que a falta da nossa presença nos faça cair no esquecimento e que descubramos que a maioria dos nossos amigos, tão presente, não o é assim tanto.

Afinal, quando foi a última vez que o vosso telefone tocou e era apenas um amigo a querer jogar conversa fora? Quando foi a última vez que a campainha da vossa porta tocou porque um amigo resolveu visitar-vos sem avisar e vos dar tempo de limpar a casa? Quantos dos vossos amigos já foram à vossa casa? Quando foi a última vez que foram ao café e se sentaram na mesa do costume, com as pessoas do costume? Quando foi a última vez que a vossa gargalhada foi ouvida em vez de lida, foi real em vez de LOL?

Este é o verdadeiro poder das redes sociais: o alimentarem-se da solidão para que nós não sejamos absolvidos e vencidos por ela.

E isso é simplesmente triste.

publicado às 12:36

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D