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Rabiscos Soltos

#FIquemEmCasa Em tempos de isolamento social um blog pode ser uma janela para mundo. Fiquem em casa. Leiam. Escrevam. Ajudem. Sejam melhores. Sejam maiores. Mas fiquem em casa.

Rabiscos Soltos

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da invisibilidade

28.11.19, P.

O que nos leva a fixar alguém no meio de uma multidão?

Provavelmente já vos aconteceu. Seja no comboio que apanham todos os dias para o trabalho, no estádio onde têm lugar cativo, na igreja que frequentam semanalmente ou simplesmente no café da esquina, provavelmente já repararam numa pessoa que encontram de forma recorrente e que vos desperta interesse. 

Lembro-me de quando morava no outro lado do rio, e todos os dias o atravessava no comboio, encontrar sempre, somos afinal animais de hábitos e ia sempre na última carruagem, uma mãe e o seu filho. Tentava sentar-me perto deles porque já sabia que ia ser uma maravilha ouvir aquelas conversas. O miúdo era um tagarela e contava o dia todo no jardim de infância e a mãe era a pessoa mais calma e doce deste mundo, que trocava olhares connosco, os restantes passageiros, como quem pede desculpa mas sabendo que aquela criança foi durante muito tempo a alma daquelas viagens aborrecidas. 

Há cerca de 2 anos cruzei-me pela primeira com uma jovem mulher que lia um livro num local inusitado. Eu sou irremediavelmente atraída por livros pelo que era impossível não reparar nela. Durante uns tempos sozinha, com o seu livro. Depois com uma mulher mais velha - a mãe - e já sem livro. A constante: uma tristeza imensa que lhe percebi sempre no olhar, nos movimentos. Já a vi sorrir e até falar com várias pessoas, nunca lhe vi chegar o sorriso aos olhos. Durante muito tempo aquela tristeza deixou-me curiosa e muitas vezes lhe imaginei a vida. Quando a vi com a mulher mais velha, que mais tarde percebi ser a mãe, foi inevitável deixar a imaginação voar para terrenos conhecidos. Não sei que doença tem a senhora mas imagino. Nos olhos dela reconheço o olhar perdido de quem se perde um pouco todos os dias, um olhar que conheço bem.

Claro que pode ser apenas a minha imaginação a funcionar. Claro que aquelas duas mulheres podem nem sequer ser mãe e filha - não sei, que não sou stalker delas, só frequentamos regularmente o mesmo espaço - a vida delas pode ser povoada de alegria e serem apenas pessoas anormalmente sérias ou a minha intuição pode estar estragada, viciada, programada ou como me dizem "andas a ler demais e depois imaginas coisas"... Mas um dia gostava de lhes dizer que não são invisíveis.

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