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Rabiscos Soltos

#FIquemEmCasa Em tempos de isolamento social um blog pode ser uma janela para mundo. Fiquem em casa. Leiam. Escrevam. Ajudem. Sejam melhores. Sejam maiores. Mas fiquem em casa.

Rabiscos Soltos

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Cozinhar é amor.

05.12.19, P.

"o tempo das refeições é sagrado"

"o tempo às refeições é tempo de família"

Tretas. O importante não é o tempo às refeições. O importante é o tempo antes das refeições. E é isso que perdemos.

O primeiro livro (sem bonecos) que li foi o "A pousada do anjo da guarda" da Condessa de Ségur. Ofereceram-mo quando fiz 8 anos e aquele livro não só me entusiasmou como assustou um bocadinho. A minha mãe decidiu que íamos ler o livro as duas. Eu lia, em voz alta, enquanto ela fazia o jantar. Durou 3 dias, a leitura em conjunto, depois ganhei asas e li o resto sozinha. Quando me ofereceram uma versão juvenil da Ilíada e da Odisseia voltei a ficar em sentido... e as leituras à hora da preparação do jantar voltaram a dar um ar de sua graça.

Também me lembro que a "conversa" sobre o Pai Natal foi tida - literalmente - à volta do fogão.

E mais tarde lembro-me que boa parte das coisas importantes que tinha para dizer eram ditas ali. Na cozinha à volta da preparação da comida.

Não tenho memórias muito específicas dos almoços e jantares de Natal mas lembro-me perfeitamente das noites de 24 de Dezembro, eu e a minha mãe, a preparar as comidas e a fazer uma pausa das arrumações para o "chá da meia-noite". 

Lembro-me de tardes a fazer doce de tomate, doce de abóbora ou de maçã. 

Lembro-me e talvez sejam das minhas memórias mais antigas, de estar empoleirada ao lado do fogão (a cozinha era antiga e o fogão estava sobre um poial), enquanto o meu pai fazia papas de milho com carne para os cães. 

Lembro-me de ter um recipiente em miniatura para ir fazendo os mini-bolos ao mesmo tempo que a minha mãe - assim podia comer metade da massa e ainda tinha um mini-bolinho. Lembro-me de aprender a fazer rissóis, de passar tardes a fazer charniqueiros (são umas queijadas de leite maravilhosas), de tentar fazer pastéis de nata.

E em tudo isto, uma constante, nós. Eu e a minha mãe. Os risos. os momentos partilhados. Os dedos enfiados na taça dos bolos, a aproveitar os restinhos, quando o bolo está no forno. Os risos. 

Hoje, quando eu e o meu marido estamos na cozinha a preparar uma qualquer refeição há discussão. E beijos. E risos. Ele zanga-se comigo porque eu tenho a cozinha num pavor enquanto cozinho. Eu zango-me com ele quando tenho que ir buscar a 13º colher porque ele pôs as anteriores 12 na máquina...que deixou aberta. Mas há sempre risos e conversas. E confusão. 

É deste tempo que sinto falta quando passo semanas a cozinhar à pressa ou a ir ao take-away. É este tempo em família que me é mais querido e importante.

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