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Rabiscos Soltos

Não é, de todo, um post Natalício

24.12.19 | P.

A umas horas da consoada tenho sempre vontade de cancelar o Natal.

Natal é família, Natal é partilha, Natal é amor.

O problema é que o Natal já não é como era quando éramos miúdos. A única diferença seremos provavelmente nós mesmos. No Natal, ainda mais que nos outros dias, sinto-me sempre como o Peter Pan, quando cresceu e fico com vontade de me enfiar debaixo de uma manta e simplesmente esperar que passe.

A família está cada vez mais pequena mas é de bom tom ter uma mesa para 20 pessoas mesmo quando somos apenas 7. Por isso e porque trabalhamos até à véspera de Natal acabamos por comprar imensas coisas. E porque quando somos nós a fazer a coisa se torna muito mais difícil. Mas as expectativas estão lá, bem alto.

Mulher que é mulher, faz sonhos, rabanadas, tortas e tartes e ainda usa saltos altos, pinta os olhos e está sempre com um sorriso. 

Isto depois de garantir que há um presente para cada pessoa, que os presentes são adequados para cada um, que o gato não destruiu a árvore, que o presépio tem o burro e a vaca, que há música e jogos para ocupar o tempo em que a malta deixa de comer e a hora aceitável de trocar presentes.

Ao mesmo tempo tempo revê mentalmente se há vinho suficiente para hoje e para amanhã, se há comida para todos, se os pratos estão lavados, se há pratos e talheres em número suficiente. 

A lista dos ingredientes do pequeno-almoço, do almoço.... 

merda, esqueci-me das castanhas...

 

Feliz Natal

 

dOS DIAS IMPORTANTES

18.12.19 | P.

Os dias importantes, aqueles que mudam a vida, não são tantos assim.

Lembrarmo-nos-emos todos do dia 11 de Setembro como um dos dias que mudou o mundo. Mas não é desses dias que falo.

Falo dos dias que mudam a vida de cada um de nós. Falo dos dias em que nasceram os filhos, em que conhecemos (ou nos apercebemos que aquela pessoa é) o amor das nossas vidas. Falo dos dias em que recebemos aquela notícia que revirou a vida do avesso e após a qual nada pode voltar a ser o mesmo. Falo dos dias em que algo estrondoso acontece e que muda o curso da vida. Raramente nos apercebemos que estes dias vão chegar mas às vezes, muito às vezes, vêm com dia e hora marcada. E quando isto acontece é... estranho. 

As expectativas misturadas com o medo. A excitação de uma nova etapa misturada com a incerteza do futuro. Acima de tudo, as oportunidades de um  novo começo.

Tive alguns destes dias ao longo da minha vida. Uns preferia que nunca tivessem acontecido, outros adorava reviver. 

Um desses dias está a aproximar-se. Não será algo tão dramático como o nascimento de uma criança (nestas coisas há sempre alguém a perguntar se estou grávida e a resposta é "não"), nem algo tão sem-retorno como outros que vivi mas será um dia que vai mudar o meu futuro próximo. E eu não consigo deixar de o esperar com um sorriso - sempre gostei de mudanças. 

Cozinhar é amor.

05.12.19 | P.

"o tempo das refeições é sagrado"

"o tempo às refeições é tempo de família"

Tretas. O importante não é o tempo às refeições. O importante é o tempo antes das refeições. E é isso que perdemos.

O primeiro livro (sem bonecos) que li foi o "A pousada do anjo da guarda" da Condessa de Ségur. Ofereceram-mo quando fiz 8 anos e aquele livro não só me entusiasmou como assustou um bocadinho. A minha mãe decidiu que íamos ler o livro as duas. Eu lia, em voz alta, enquanto ela fazia o jantar. Durou 3 dias, a leitura em conjunto, depois ganhei asas e li o resto sozinha. Quando me ofereceram uma versão juvenil da Ilíada e da Odisseia voltei a ficar em sentido... e as leituras à hora da preparação do jantar voltaram a dar um ar de sua graça.

Também me lembro que a "conversa" sobre o Pai Natal foi tida - literalmente - à volta do fogão.

E mais tarde lembro-me que boa parte das coisas importantes que tinha para dizer eram ditas ali. Na cozinha à volta da preparação da comida.

Não tenho memórias muito específicas dos almoços e jantares de Natal mas lembro-me perfeitamente das noites de 24 de Dezembro, eu e a minha mãe, a preparar as comidas e a fazer uma pausa das arrumações para o "chá da meia-noite". 

Lembro-me de tardes a fazer doce de tomate, doce de abóbora ou de maçã. 

Lembro-me e talvez sejam das minhas memórias mais antigas, de estar empoleirada ao lado do fogão (a cozinha era antiga e o fogão estava sobre um poial), enquanto o meu pai fazia papas de milho com carne para os cães. 

Lembro-me de ter um recipiente em miniatura para ir fazendo os mini-bolos ao mesmo tempo que a minha mãe - assim podia comer metade da massa e ainda tinha um mini-bolinho. Lembro-me de aprender a fazer rissóis, de passar tardes a fazer charniqueiros (são umas queijadas de leite maravilhosas), de tentar fazer pastéis de nata.

E em tudo isto, uma constante, nós. Eu e a minha mãe. Os risos. os momentos partilhados. Os dedos enfiados na taça dos bolos, a aproveitar os restinhos, quando o bolo está no forno. Os risos. 

Hoje, quando eu e o meu marido estamos na cozinha a preparar uma qualquer refeição há discussão. E beijos. E risos. Ele zanga-se comigo porque eu tenho a cozinha num pavor enquanto cozinho. Eu zango-me com ele quando tenho que ir buscar a 13º colher porque ele pôs as anteriores 12 na máquina...que deixou aberta. Mas há sempre risos e conversas. E confusão. 

É deste tempo que sinto falta quando passo semanas a cozinhar à pressa ou a ir ao take-away. É este tempo em família que me é mais querido e importante.