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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

A ternura dos 40

Um dia teria que ser e teria que deixar de ter paciência para determinadas merdas. Acho que foi por, há algumas semanas, ter chegado aos 40 que dou por mim a responder a coisas que deixava passar por não me querer meter em confusões. Foram anos a tentar não dar murros em ponta de facas que é como quem diz, anos a tentar ser conciliadora e a querer manter-me longe de confusões nas redes sociais e afins. Essa atitude conciliatória já me valeu amizades, ao contrário do que poderia pensar - é que às tantas a falta de respeito que têm por nós ultrapassa os limites do aceitável e deixamos de conseguir aguentar. Depois de ter sido espalha brasas na adolescência, esforçadamente ponderada (coisas que nem sempre consegui, é certo) durante muitos anos, cheguei àquela fase em que simplesmente não quero saber e já não consigo aturar gente que não tem respeito pelos outros e cujos valores colidem com tudo aquilo em que acredito. 

...sabem onde podem pôr as flores hoje, não sabem?

“A todas as mulheres fortes e independentes desejamos um feliz dia!”

 

De uma forma ou de outra esta é a mensagem que passa. Feliz dia às mulheres fortes e independentes

Esta frase mostra, em parte, a importância deste dia. Vamos lá a ver se nos entendemos. Este dia não serve para comemorar a força e a independência das mulheres. Este dia serve para chamar a atenção para todas as mulheres que não têm o direito, nem as condições, para serem fortes nem independentes.

Este ano já morreram 13 mulheres às mãos de quem as deveria amar e acarinhar. A violência doméstica está na agenda do dia, houve um dia de luto, minutos de silêncio mas soluções, nada.  Quero muito enganar-me mas cheira-me que vai ser assunto para ser devidamente politizado e falado este ano, ano de eleições e depois relegado para a gaveta. Again. E não, a violência doméstica não é exclusivo das mulheres, mas ignorar que tem um efeito devastador nas mulheres é ser hipócrita e estúpido.

O feminismo, essa luta pela igualdade, continua a ser interpretado como “contrário de machismo” e a ser pelouro de “histéricas e gajas que odeiam os homens”. Mas há feminismo bom, sim. É aquele que é definido por alguns homens. Não pude deixar de me rir quando, na sequência do escândalo daquele juiz execrável, li que “nunca a causa feminista foi tão bem defendida como pelo RAP”. E quem não perceber a ironia disto (e que este comentário não tem nada a ver com o RAP), nem precisa continuar a ler…

A mutilação genital feminina continua a ser um problema mundial, o mercado sexual continua a ser uma realidade, os números das violações e abusos sexuais continuam a ser assustadores (e irrealistas). Mas o Me too é um “exageeeeero”!

Os números de mulheres em cargos importantes, cargos políticos, conselhos de administração  e afins continuam a ser ridiculamente baixos e ainda há quem considere que isso acontece por uma questão de (falta de) mérito. Estudos dizem que a igualdade só se atinge daqui cerca de muitos e muitos anos. Ah e nada como uma mesa de homens para “conversas no feminino” como vi hoje por aí…

O círculo da política mundial está a arrastar-nos de novo para o conservadorismo e subitamente ouve-se que “as meninas vestem rosa e os meninos vestem azul” e assusta-me para caraças porque eu gosto de azul e de toda uma panóplia de cores.

Ainda há quem ache que feminismo é coisa de mulheres e que machismo é coisa de homens…

E ainda há quem diga que “não é feminista, é pela igualdade”, quem “comemore” o dia da mulher e quem ofereça flores neste dia… sabem onde podem pôr as flores hoje, não sabem?

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Soubessem vocês a quantidade de vezes que digo para mim mesma: "não me pagam para isto".

Um dia faço greve para protestar relativamente às decisões que eu própria tomo.

 

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Quando o despertador tocou hoje nem queria acreditar no meu cansaço. E ainda é terça-feira. E amanhã o toque de alvorada vai ser ainda antes do sol nascer. Depois de uma semana com os níveis de adrenalina lá em cima, esta semana é de recuperação e vai ser muito difícil.  Precisava tanto de 24 horas de silêncio, de não ter qualquer horário ou obrigação, de não ter que olhar para o telefone, de não ter que pensar no que vai ser o almoço, o lanche ou o jantar. Só 24 horas. Não é pedir muito e, no entanto, é pedir demasiado.

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Isto das aparências é uma coisa engraçada. Ainda hoje, vi um tweet qualquer, que criticava um casal que, à mesma mesa, não conversava, olhavam para o telefone. Confesso que me apeteceu responder que "o melhor de um casamento é a possibilidade de ficar em silêncio" mas não me dei ao trabalho, sei que não iria ser bem interpretada e é demasiado cansativo explicar. Adoro ter uma relação em que podemos partilhar um silêncio, em que podemos passar uma tarde numa café, cada qual com o seu livro, jornal, telefone. É mais importante ser feliz que parecer feliz.

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2019 e ainda boa parte das pessoas acha que o dia da mulher serve para "comemorar" o facto de sermos do sexo feminino. Ainda se distribui flores nas empresas (as mesmas em que se olha de lado uma mulher que tem que sair mais cedo porque o filho ficou doente). Ainda se aplaude os homens que ajudam em casa. Ainda se diz que feminismo é o contrário de machismo.

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Há homens feministas e mulheres machistas. O feminismo não é de uso exclusivo feminino, é certo, mas é de uma lata descomunal quando se aproveita uma acção decente de um homem para catalogar como feminismo certo o praticado pelos homens e como inconsequente o das mulheres. Ah... a ironia.

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Não gosto do carnaval. São cá coisas minhas, coisas de infância, que me fazem associar carnaval a solidão. Nunca gostei de me divertir por obrigação, com data marcada e já descobri que o melhor do mundo, nessas datas (carnaval, passagem do ano, aniversários vários, dia dos namorados), é ficar enroscada no sofá, a ver um filme ou uma série após um jantar de petiscos, daqueles que puxam à conversa e a uma caipirinha feita em casa.

 

 

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