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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

sorriso

Não sei sorrir. É verdade. O meu sorriso é mais um esgar manhoso que um sorriso bonito. Não se é por nunca ter aprendido, não sei se se pode aprender a sorrir. Desconfio que não, quero crer que não, que é uma coisa física porque se é de aprendizagem, e eu nunca aprendi, fico um bocado irritada. O resultado é que nas fotos fico sempre mal, com ar que quem está super infeliz mesmo que transborde felicidade – infelizmente, não sei para onde ela vai mas para as fotos não é de certeza. Talvez seja por esta minha incapacidade que reparo tanto nos sorrisos dos outros. Talvez seja por isto que me apaixono pelos sorrisos dos outros. Talvez seja por isso que gosto tanto dos sorrisos verdadeiros. Daqueles que chegam aos olhos, que quebram corações. Lá em casa temos uma guerra antiga por causa dos sorrisos das fotos: ele quer que eu sorria, eu quero que ele faça “aquele” sorriso. Não me chega um sorriso qualquer. Quero aquele. O meu sorriso, o sorriso traquinas que me deixa em paz.

Às vezes, como hoje, vejo uma foto de uma amiga ou de um amigo e lá está um destes sorrisos. Diferente do que está em todas as outras fotos. Ou pelo menos assim me parece, diferente. E nesse dia nem preciso perguntar: “estás bem?”.

publicado às 14:20

Vergonha, assombro, espanto, respeito!

A banalidade com que se pega numa arma e se tira uma vida deixa-me estarrecida. O respeito pela vida nunca foi grande coisa ao longo da história da humanidade mas era suposto que tivéssemos evoluído. Os factos são gritantes. Não só não evoluímos como nem sequer estagnámos. A facilidade com que despersonalizamos os outros, nos sentimos superiores e como tal, sancionamos a sua morte, o seu extermínio é impressionante. 

Para o bem e para o mal, os Estados Unidos da América são o nosso espelho. E são aquele de quem esperamos os piores exemplos. Por isso, o movimento encabeçado por miúdos que se recusam a ser apenas vítimas da violência são um sinal para todo o mundo.

Estes miúdos dão-me esperança para o futuro. Num mundo em que os adultos lhes falharam, que está minado por corrupção e displicência,que está nas mãos de grupos cujos interesses colidem com a própria definição de humanidade, decidiram agarrar no futuro com as próprias mãos. 

Vejo tantos olhá-los com orgulho. Eu sinceramente não consigo olhar para eles com orgulho porque isso quase implica que eles são o resultado do nosso trabalho. Não são. São o resultado de uma degradação a que nós deixámos o mundo chegar. Eu olho para eles com vergonha, assombro, espanto, respeito.

Vergonha, porque deixámos, com as nossas acções ou as nossas inacções, o mundo chegar a este ponto. Assombro, porque fico maravilhada por miúdos terem a coragem de gritar contra o poder instituído. Espanto, pela forma como conseguem mobilizar. Respeito, por transformarem a dor, o sofrimento, em poder. E por usarem esse poder para algo positivo. 

E medo. Medo que tento afastar da mente. Medo deles não conseguirem ganhar. Medo deles se deixarem consumir. Medo deles se transformarem naquilo contra o qual lutam. Mas ainda assim com esperança. E confiança. Confiança na sua convicção, na sua coragem. Que eles triunfem e transformem o mundo num lugar mais digno. 

 

publicado às 10:44

“Não consigo compreender porque estás no Facebook”

O tema está na ordem do dia, parece que toda a gente acordou agora para os malefícios das redes sociais e foi com esta frase, não consigo perceber porque estás no Facebook, que a conversa começou.

Não vou discorrer sobre partilha de dados, sobre notícias falsas ou manipulação de dados e pessoas.  Vou falar um bocadinho sobre solidão.

Não me lixem, as redes sociais alimentam-se de solidão. Da solidão encapotada dos dias de hoje. É por isso que eu, que todos nós, estamos nas redes sociais.

É verdade que nas redes sociais fazemos amigos e que esses amigos saltam para a nossa vida. É verdade que as redes sociais têm imensas qualidades, permitem-nos ter acesso rápido a pessoas e conteúdos, a informação é-nos dada de bandeja, sem esforço ou limite. Para cada ponto negativo atribuído a uma rede social, eu arranjo-vos um positivo. E o contrário é também verdade.

Mas no final só vejo uma razão pela qual as redes sociais continuam e continuarão a proliferar: as redes sociais espantam a solidão e criam a ilusão de partilha, de amizade, de companheirismo.

Numa sociedade sem tempo útil, onde o perto se fez longe pelas vidas, onde cada vez é mais difícil combinar um café (apesar de termos todos carros à porta e haver esplanadas por todo o lado), onde é cada vez mais raro pegar no telefone só para conversar (apesar das chamadas serem de borla e todos termos um telefone connosco 24/7) ou enviar uma carta só porque sim (apesar do email ter tornado instantâneo essa comunicação) é através das redes sociais que a ilusão de “companhia” se faz.

Virtualmente temos centenas de amigos, milhares de conhecidos. Virtualmente “seguir” alguém deixou de ser considerado voyeurism para se tornar simpatia. As redes sociais permitiram que nos tornássemos naquilo que queremos ser: simpáticos, fofinhos, bullys, corajosos, sábios. Os likes e afins permitiram que nos sentíssemos aceites. E “pertencer” é tudo aquilo que a maioria de nós sempre quis.

Quando eu era miúda tinha o meu grupo de amigos, passava horas ao telefone (até que alguém cortava a chamada), sofria com a ausência, brincava na rua. Na adolescência passava o tempo no café, ficava na rua a conversar até sermos chamados para jantar.

O tempo, a segurança e tudo o mais que é prioritário impede que este contacto pessoal, tão importante, seja possível hoje em dia. E as redes sociais dão-nos uma falsa sensação de que isto ainda acontece.

Sim, o Facebook e as restantes redes sociais aproximam-nos dos outros.

Mas a verdadeira razão para que tanta gente se mantenha nas redes sociais é o medo que a ausência nos torne invisíveis. Que a falta da nossa presença nos faça cair no esquecimento e que descubramos que a maioria dos nossos amigos, tão presente, não o é assim tanto.

Afinal, quando foi a última vez que o vosso telefone tocou e era apenas um amigo a querer jogar conversa fora? Quando foi a última vez que a campainha da vossa porta tocou porque um amigo resolveu visitar-vos sem avisar e vos dar tempo de limpar a casa? Quantos dos vossos amigos já foram à vossa casa? Quando foi a última vez que foram ao café e se sentaram na mesa do costume, com as pessoas do costume? Quando foi a última vez que a vossa gargalhada foi ouvida em vez de lida, foi real em vez de LOL?

Este é o verdadeiro poder das redes sociais: o alimentarem-se da solidão para que nós não sejamos absolvidos e vencidos por ela.

E isso é simplesmente triste.

publicado às 12:36

Avulso

  • Tentei ver os Prós e Contras sobre a possibilidade de deixar entrar animais em restaurantes. Digo tentei porque não tive estômago ou nervos para aquilo. Daquele bocadinho fico com a certeza que uma discussão está viciada quando o moderador é obviamente parcial, que o pessoal que estava a defender o SIM tem nervos de aço e paciência de job e que o lado do NÃO não foi ali esgrimir argumentos, foram tentar humilhar e ridicularizar os outros e acabaram a fazer uma triste figura. 
  • Ainda sobre os PeC fica a resposta ao eterno "não humanizemos os animais" : "não infantilizemos os portugueses"
  • E só para acabar com os PeC, a quem ficou muito chocado quando o humorista referiu que os gatos comem as baratas devo dizer que a última vez que vi uma barata dentro de um café foi dentro de um croissant e que o empregado não ficou minimamente preocupado.
  • Já não suporto futebol. Os debates, as guerras, as discussões, os insultos. NOJO
  • Tento não pensar muito na questão Síria. Não sei como ajudar, não sei o que fazer e partilhar frases feitas dizendo que não se fala o suficiente no assunto (ficando assim de consciência tranquila) não é para mim. O que eu queria mesmo era saber que a forma certa de ajudar é contribuir para a Cruz Vermelha ou se há alguma associação humanitária que está a conseguir lá chegar.
  • Não é que tivesse esperança que o AG conseguisse mudar a minha opinião sobre a ONU mas... a desilusão tem sido grande mesmo assim.
  • Vem aí o dia internacional da mulher e vejo-me sem a menor vontade de falar sequer no assunto. Sinto uma regressão tão grande na sociedade em relação e este e outros assuntos que começo a fazer minha a frase da Mafaldinha:

 

Parem o Mundo que quero sair

publicado às 17:38

Ai Portugal, Portugal

Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar 
Ai, Portugal, Portugal 
Enquanto ficares à espera 
Ninguém te pode ajudar

 

Por acaso (talvez não por acaso) gosto muito das letras do Palma (mas aquele DVD do Só, Oh amigo, que raio foi aquilo? e um concerto tão bom, sei-o eu que estive lá). Mas não é do Palma que quero falar mas do país do Palma. Deste país que está sempre à espera de qualquer coisa, com um pé numa galera e outro no fundo mar.

Uma das coisas que mais me irrita é esta fatalidade que temos e esta mania de sermos treinadores de bancada, de não nos responsabilizarmos por coisa de nenhuma e, obviamente, sabermos sempre o que os outros fazem de mal (mas nós nunca, nós nunca, são os outros).

Qdo pus no facebook o texto que escrevi acerca da entrada dos animais numa restaurante (é o post anterior a este, se quiserem ler) tive, como já esperava, algumas lições de moral. Podiam ter-me dito que não concordavam e pronto, que não iriam ao dito restaurante porque não concordavam com tal e estava a coisa arrumada. Mas Português que é Português não concorda com isso porque os outros portugueses são pessoas de fraca educação e nenhum civismo e vai tudo ser uma rebaldaria, vão voar pêlos, garfos e copos, vão haver lutas e mijadelas pelo ar e pelo chão. Vai ser o terror porque os Portugueses são todos uns porcos.

Da mesma forma, acho sempre imensa piada quando se fala de horários laborais: os portugueses adoram fingir que trabalham, ficar até tarde e não são nada produtivos. Se falarmos de quem fuma então, nem pensar, as pausas para fumar são a raiz de todos os males (mas as pausas para ir ao twitter ou ao facebook já não são, porque quem o faz está a pensar o mesmo tempo e o cérebro dos fumadores aparentemente pára de vez em quando). Claro que quem faz este género de comentário não se inclui nestes portugueses.

Aliás, nós nunca nos incluímos neste género de coisa (sim, eu tb o faço, às vezes) e temos a tendência para nos moldarmos aos defeitos num fatalismo que me irrita e que nos leva a não ser a mudança que queremos ver no mundo.

 

publicado às 16:42

E tu vais levar o animal para o restaurante?

Oh senhores, o meu gato é anti-social, até custo a levá-lo ao veterinário, vou agora levá-lo para o restaurante. Tenham juízo.

Mas não sou contra esta lei que permite que um animal vá com os donos para o café.

As discussões que tenho lido sobre o assunto são absolutamente estúpidas. Desculpem-me, eu até gosto muito alguns de vocês, mas parem lá de ser drama queens, que não acredito que alguma vez estejam a jantar com 10 cães à bulha na mesa do lado.

E do outro lado, parem de comparar cães e crianças. Sim, vão ter que levar com crianças nos restaurantes, sim, vão ter que levar com maminhas a dar de comida aos pimpolhos, vão ter que levar com birras e brincadeiras dos filhos dos outros. Deal with  it ou ide para outro restaurante. Azareco.

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Qual é o drama de ir passear o cão e parar para beber um café, comer qq coisa, ler uma revista com o bicho aos pés?  Acreditem, se o cão estiver a incomodar os outros, esse dono vai ser o primeiro a pedir desculpa e ir embora.

Acreditam mesmo que vai haver muita gente a levar o cão ao restaurante da moda, num sábado à noite, só porque pode? Sinceramente não acredito. A maioria das pessoas que tem animais sabe que esses animais não estão assim tão à vontade junto de gente estranha e gosta demasiado deles para os expor a isso. 

Estou a imaginar que as velhotas vão levar o cão a pilhas a beber chá com as amigas (e so what?) e que o bicho não vai sair da mala, é afinal o único ser que acompanha a sério aquela pessoa, o único verdadeiro amigo que lhe afasta a solidão.

Sim, vai haver palermas no início, há sempre. Mas depois outra polémica vai aparecer e vamos entrar na normalidade.

Sim, de inicio vai haver gente que vai experimentar e depois perceber que o seu cão dá mais trabalho num café que em casa e não o torna a levar. E depois vamos entrar na normalidade.

Quanto a mim conheço alguns cães que vão ao café com os donos. Uns ficam com os donos na esplanada, outros ficam à porta à espera, outros entram sorrateiramente ou à descarada e não se passa mais nada. 

Ah e quanto aos outros animais para além de cães? Esqueçam, quem tem gatos sabe bem que levá-los à rua fora da transportadora é um terror.

Chamei a este post "E tu vais levar levar o animal para o restaurante?" mas poder-lhe-ia ter chamado "a montanha pariu um rato" porque é o que acho que é discussão é.

 

publicado às 11:23

Não se deixem enganar pelo ar fofinho

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Tem mesmo um ar doce, não tem? Lindo que dói, é uma estrela no meu facebook, eu sou conhecida além-fronteiras por ter um gato lindo, com olhos doces. Mas a verdade é que isto é uma fera!

O meu piolhito teve um problema renal, a coisa esteve assim malzinha, gastou uma das nove vidas e depois de 5 dias internado voltou para casa, malcheiroso e com muitos comprimidos para tomar. Os primeiros dias não foram muito difíceis, ele estava ainda muito debilitado e tomou tudo com poucas reclamações. Os últimos dias do tratamento já implicaram algumas lutas, bufadelas de parte a parte e uma certa ginástica, seguida de birra do menino.

Ontem, no seguimento de mais uma consulta de seguimento, voltou a trazer anti-inflamatório para tomar. 

(vou passar a parte da birra no Veterinário, não foi assim tão mau - o 1/4 de valium que enfiou no bucho ajudou)

(também vou passar à frente a luta para o pôr na transportadora- os dois arranhões que tenho na cara não estão com tão mau aspecto assim)

(vou passar directamente para o filme: dar um comprimido a um gato)

A vet disse-nos que os gatos geralmente gostam daquele comprimido, que por norma eles comiam tipo snac. Por isso assim que cheguei a casa tentei dar-lhe o comprimido. Atirei-lho, como se fosse uma brincadeira. Cheirou-o e veio pedir brincadeira, mas deixou lá o dito cujo.

Pu-lo na taça da comida e tive uma conversa séria com ele:

"ZéGato, tens 2 hipóteses: tomas o comprido a bem ou a mal. Dou-te até à hora de irmos dormir, tu é que sabes"

(imaginam o que aconteceu, não é? pois)

(esqueci-me de vos dizer que comprei um lança-comprimidos - não resulta)

Na primeira tentativa, pus o comprimido num bocadinho de comida. Comeu tudo... excepto o comprimido, que ficou solitário no fundo da taça.

Apanhámo-lo, ele começou a espernear, e o comprimido veio cá para fora uma vez.

Mais miadelas como se o estivessemos a esmagar, mais uma unhada na minha mão e mais uma vez o comprimido a ser deligentemente cuspido (nesta altura, já não era o meu gato fofinho, era um cabrãozinho que me estava a irritar)

Fuga para o quarto, onde o intercepto a tempo. Basicamente agarro-o, à bruta, abro-lhe a boca e toca de enfiar o comprimido lá para dentro (nesta altura já tinha desistido do lança comprimidos). Agarramos-lhe o focinho para não o deixar cuspir, soprar-lhe para o focinho para o forçar a engolir (truque da vet), esperar um bocadinho ao som de rosnadelas  e libertá-lo.... cuspidela e comprimido no chão. 

Desisti.

Meia dúzia de palavrões, acompanhado de um "Se não quiseres tomar, não tomes, o resultado vai ser teres um tubo enfiado na pila outra vez

Depois de respirar, de tomar os meus comprimidos (a puta da febre não me larga), decidi pôr-lhe o comprimido numa colher de latinha (diferente da primeira) e ir dormir. 

Antes que tivesse saído da cozinha, o gajo tinha comido tudo, incluindo o comprimido.

Cabrão!

 

 

 

 

publicado às 11:06

isto está a tornar-se ridículo

Permitam-me um post de auto comiseração. Uma pessoa passa 3 meses assim para o mauzinhos mas aguenta-se, que remédio. Mas depois cria algumas expectativas, saudáveis, de ter uns dias de sossego, de voltar a ver os amigos, jantar fora, beber uns copos e vai daí a puta de uma gripe instala-se, estica as patinhas e aninha-se num "daqui não saio, daqui ninguém me tira".

Em vez de copos há antibióticos, os meus e os dele, em vez de amigos há médicos. É certo que vêm a casa mas não é a mesma coisa, acreditem que não é. 

Está a tornar-se ridículo, esta puta desta gripe não desampara a loja, ora tem um febre, ora tem o outro, um dói-lhe a garganta por causa da amigdalite, não pode falar alto, o outro tem uma otite e os ouvidos tapados, está surdo que nem uma porta, é um diálogo de malucos, se não fosse trágico seria divertido.

 

publicado às 17:33

da diferença entre liberdade de expressão e de acção

Hoje venho tentar pôr em palavras algo que me anda a incomodar um bocado e que tenho alguma dificuldade em expor de forma clara.

Comecemos este exercício por imaginar uma qualquer polémica (não é difícil, pois não?) que incendeia as redes sociais.

Das redes sociais, a coisa salta para a TV, da TV para todas as pessoas que, estando nas redes sociais, ainda não tinham comentado a questão.

Ora, como as redes sociais são um reflexo da sociedade (mas ainda mais reivindicativos) há nestas uma igual quota parte de gente parva.

Até aqui nada de estranho.  A globalização e a facilidade de informação faz com que pouco ou nada passe despercebido. É positivo que a sociedade civil tenha uma palavra a dizer e seja opinativa. O problema vem, na minha opinião, depois.

Começa a ser normal que as autoridades, seja sob a forma de associações, comissões, várias “autoridades”, assembleia da republica ou até o ministério público resolvam agir. A maioria destas acções são, ou parecem ser, precipitadas. Estas acções parecem ser consequência directa das reclamações da sociedade civil.

Depois é a loucura. Deixa de se discutir a questão e passa a discutir-se a força das redes sociais, a parvoíce das redes sociais, o poder das redes sociais. Passa a discutir-se a democracia (o que seria positivo se não fosse tantas vezes trágico). Põe-se em causa a legitimidade da emissão das opiniões e das reivindicações. Põe-se em causa a liberdade de expressão.

Ora, dando um passo atrás, eu não quero limitar a liberdade de expressão de ninguém. Eu quero ter a liberdade de me insurgir e de, no Twitter ou no Facebook, dizer meia dúzia de parvoíces, ser chamada à razão, ouvir outros argumentos, desabafar.

Eu não quero que, por causa das minhas opiniões infundadas, de leiga, sejam tomadas decisões imponderadas. Quero, enquanto membro da sociedade civil, contribuir para uma discussão, dar o meu contributo à democracia. Não quero ser parte do problema.

É importante que a opinião publica seja ouvida e levada em conta. É igualmente importante que quem toma decisões, o faça sem medos e sem constrangimentos e com base em factos e argumentos válidos.

Calar a turba não é, sequer, uma possibilidade válida hoje em dia. Ter medo dela, agir a “toque de caixa” ou às mãos dos utilizadores das redes sociais também não deveria ser.

Uma das consequências de tudo isto é que as opiniões ponderadas cada vez têm menos espaço nas redes sociais – e como tal nestas decisões de que falo -seja porque os ponderados cada vez se afastam mais, seja por não estarem na moda. Todos nós sabemos que não são as opiniões ponderadas que chegam longe, que são discutidas, rebatidas, comentadas. São as parvoíces, são os extremismos, que são aclamados, difundidos.  Aliás, as opiniões ponderadas são, na sua maioria, massacradas nas redes sociais que vivem do “ou és por mim ou contra mim”. Basta conhecer um bocadinho da essência das redes sociais para não as levar completamente a sério. São excelentes para estar dentro de todos os assuntos, mas é necessário um enorme trabalho de separação do trigo e do joio para dali retirar o que de positivo elas têm.

publicado às 11:27

Feminismo bom, feminismo mau

Portugal, Mundo, 2018. O feminismo está na ordem do dia e todos, todos, defendem que o seu é o bom. Depois há o outro.

Acho que devo começar este post com um disclamer: eu defendo a igualdade de género, a violação é crime.

Pronto, disclamer feito, posso começar a criticar e vou ter toda a razão do meu lado, porque já disse e ficou registado: eu defendo o tipo de feminismo certo.

E agora posso atacar essas feministas histéricas, extremistas, que querem à força direitos, essa coisa estranha. E que se me criticarem, estão a tentar acabar com o meu direito à liberdade de expressão, de opinião (mas nunca se esqueçam que eu sou feminista, e das feministas que defende o feminismo certo).

E se está na constituição que todos têm direitos iguais, que mais querem? Já está consagrado na lei. Os direitos são iguais para todos. Ai que chatas, essa mania de mulheres e homens ganham salários diferentes para trabalhos iguais, essa mania que violência doméstica pende sempre para o lado feminino. Olhem, até conheço um homem, que ganha menos que a mulher e outro que já levou um estalo da mulher (que choninhas, pá, então mas o gajo deixa que a tipa lhe dê um estalo?). Pronto, está provado. Não é preciso essa coisa do feminismo, que é cena de histéricas nas redes sociais. Mas eu não sou machista, que cá para mim são todos iguais. Há muito homem que também é feminista histérica. Viram? Eu defendo o feminismo certo. São todos iguais.

Pronto, agora a sério. Sim, eu sou feminista mas não desse género de feminismo que precisa de se vestir de negro e vai buscar cenas ao passado. Não podemos antes fazer um ponto e zero e dizer: daqui para a frente é que é, já não há cá mãozinhas, nem bocas, nem pilas onde não devem estar? Agora mudar as regras a meio do jogo, fica mal, estraga vidas e ninguém aqui quer estragar vidas, pois não? Somos todos iguais.

Ficamos combinados, então? Defendemos o feminismo certo, mas baixinho, assim como fica bem às mulheres. Ladies, a malta quer é ladies (e se querem falar das putas na cama, só vos digo, que essas, essas, tiveram sorte e subiram na carreira. E agora queixam-se. putas, pá).

publicado às 17:02

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