Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

A ternura dos 40

Um dia teria que ser e teria que deixar de ter paciência para determinadas merdas. Acho que foi por, há algumas semanas, ter chegado aos 40 que dou por mim a responder a coisas que deixava passar por não me querer meter em confusões. Foram anos a tentar não dar murros em ponta de facas que é como quem diz, anos a tentar ser conciliadora e a querer manter-me longe de confusões nas redes sociais e afins. Essa atitude conciliatória já me valeu amizades, ao contrário do que poderia pensar - é que às tantas a falta de respeito que têm por nós ultrapassa os limites do aceitável e deixamos de conseguir aguentar. Depois de ter sido espalha brasas na adolescência, esforçadamente ponderada (coisas que nem sempre consegui, é certo) durante muitos anos, cheguei àquela fase em que simplesmente não quero saber e já não consigo aturar gente que não tem respeito pelos outros e cujos valores colidem com tudo aquilo em que acredito. 

...sabem onde podem pôr as flores hoje, não sabem?

“A todas as mulheres fortes e independentes desejamos um feliz dia!”

 

De uma forma ou de outra esta é a mensagem que passa. Feliz dia às mulheres fortes e independentes

Esta frase mostra, em parte, a importância deste dia. Vamos lá a ver se nos entendemos. Este dia não serve para comemorar a força e a independência das mulheres. Este dia serve para chamar a atenção para todas as mulheres que não têm o direito, nem as condições, para serem fortes nem independentes.

Este ano já morreram 13 mulheres às mãos de quem as deveria amar e acarinhar. A violência doméstica está na agenda do dia, houve um dia de luto, minutos de silêncio mas soluções, nada.  Quero muito enganar-me mas cheira-me que vai ser assunto para ser devidamente politizado e falado este ano, ano de eleições e depois relegado para a gaveta. Again. E não, a violência doméstica não é exclusivo das mulheres, mas ignorar que tem um efeito devastador nas mulheres é ser hipócrita e estúpido.

O feminismo, essa luta pela igualdade, continua a ser interpretado como “contrário de machismo” e a ser pelouro de “histéricas e gajas que odeiam os homens”. Mas há feminismo bom, sim. É aquele que é definido por alguns homens. Não pude deixar de me rir quando, na sequência do escândalo daquele juiz execrável, li que “nunca a causa feminista foi tão bem defendida como pelo RAP”. E quem não perceber a ironia disto (e que este comentário não tem nada a ver com o RAP), nem precisa continuar a ler…

A mutilação genital feminina continua a ser um problema mundial, o mercado sexual continua a ser uma realidade, os números das violações e abusos sexuais continuam a ser assustadores (e irrealistas). Mas o Me too é um “exageeeeero”!

Os números de mulheres em cargos importantes, cargos políticos, conselhos de administração  e afins continuam a ser ridiculamente baixos e ainda há quem considere que isso acontece por uma questão de (falta de) mérito. Estudos dizem que a igualdade só se atinge daqui cerca de muitos e muitos anos. Ah e nada como uma mesa de homens para “conversas no feminino” como vi hoje por aí…

O círculo da política mundial está a arrastar-nos de novo para o conservadorismo e subitamente ouve-se que “as meninas vestem rosa e os meninos vestem azul” e assusta-me para caraças porque eu gosto de azul e de toda uma panóplia de cores.

Ainda há quem ache que feminismo é coisa de mulheres e que machismo é coisa de homens…

E ainda há quem diga que “não é feminista, é pela igualdade”, quem “comemore” o dia da mulher e quem ofereça flores neste dia… sabem onde podem pôr as flores hoje, não sabem?

...

Soubessem vocês a quantidade de vezes que digo para mim mesma: "não me pagam para isto".

Um dia faço greve para protestar relativamente às decisões que eu própria tomo.

 

...

Quando o despertador tocou hoje nem queria acreditar no meu cansaço. E ainda é terça-feira. E amanhã o toque de alvorada vai ser ainda antes do sol nascer. Depois de uma semana com os níveis de adrenalina lá em cima, esta semana é de recuperação e vai ser muito difícil.  Precisava tanto de 24 horas de silêncio, de não ter qualquer horário ou obrigação, de não ter que olhar para o telefone, de não ter que pensar no que vai ser o almoço, o lanche ou o jantar. Só 24 horas. Não é pedir muito e, no entanto, é pedir demasiado.

...

Isto das aparências é uma coisa engraçada. Ainda hoje, vi um tweet qualquer, que criticava um casal que, à mesma mesa, não conversava, olhavam para o telefone. Confesso que me apeteceu responder que "o melhor de um casamento é a possibilidade de ficar em silêncio" mas não me dei ao trabalho, sei que não iria ser bem interpretada e é demasiado cansativo explicar. Adoro ter uma relação em que podemos partilhar um silêncio, em que podemos passar uma tarde numa café, cada qual com o seu livro, jornal, telefone. É mais importante ser feliz que parecer feliz.

...

2019 e ainda boa parte das pessoas acha que o dia da mulher serve para "comemorar" o facto de sermos do sexo feminino. Ainda se distribui flores nas empresas (as mesmas em que se olha de lado uma mulher que tem que sair mais cedo porque o filho ficou doente). Ainda se aplaude os homens que ajudam em casa. Ainda se diz que feminismo é o contrário de machismo.

...

Há homens feministas e mulheres machistas. O feminismo não é de uso exclusivo feminino, é certo, mas é de uma lata descomunal quando se aproveita uma acção decente de um homem para catalogar como feminismo certo o praticado pelos homens e como inconsequente o das mulheres. Ah... a ironia.

...

Não gosto do carnaval. São cá coisas minhas, coisas de infância, que me fazem associar carnaval a solidão. Nunca gostei de me divertir por obrigação, com data marcada e já descobri que o melhor do mundo, nessas datas (carnaval, passagem do ano, aniversários vários, dia dos namorados), é ficar enroscada no sofá, a ver um filme ou uma série após um jantar de petiscos, daqueles que puxam à conversa e a uma caipirinha feita em casa.

 

 

A importância de pedir ajuda

Uma das coisas que acho maravilhosas é que quando perguntamos a alguém qual o seu maior defeito a resposta é invariavelmente uma de três: "tenho um mau feitio dos diabos", "sou demasiado teimosa" ou "sou demasiado perfeccionista". (tb há a versão "sou demasiado boazinha" mas isso já entra, para mim noutra categoria e fica para outro post)

Claro que é normal que, numa situação em que nos pedem para revelarmos o pior que temos e somos, queiramos dar a volta à questão e mostrar que o nosso pior é, afinal, óptimo. Sim, porque neste contexto "demasiado teimoso" significa "sou perseverante, corajosa e não desisto"; "demasiado perfeccionista" significa "sou boa no que faço, gosto de o fazer bem feito" e "tenho um mau feitio dos diabos significa "tenho sangue na guelra, não sou amorfa e estou aqui para a luta". Em termos de contexto de trabalho todos estes "defeitos" são qualidades imensas (claro que se eu fosse uma entidade patronal e me dessem respostas destas, eu ia apenas revirar os olhos).

Em termos reais e sociais, qualquer uma destas três características  pode ser um problema grave. Um mau feitio dos diabos pode transformar-se num problema de raiva e de violência; a teimosia e o perfeccionismo levados ao extremo podem transformar-se em algo incapacitante. 

Mas pedir ajuda ainda não é algo em que pensemos. Aliás, acho que cada vez mais "pedir ajuda" é algo que evitamos fazer. Mesmo quando admitimos ter um problema, só o facto de nos sugerirem procurar ajuda - profissional ou não - nos põe à defesa. Pedir ajuda significa - demasiadas vezes - obrigarmo-nos a enfrentar e a admitir um problema. Pedir ajuda obriga-nos a des-enfiar a cabeça da areia (eu podia ter escrito "tirar" mas não era a mesma coisa). Pedir ajuda podia de facto transformar a nossa vida em algo melhor e mais fácil mas tirar-nos-ia o gostinho de dizer "eu consegui sozinha". Pedir ajuda podia salvar-nos a vida. Mas isso lá é importante?

A verdade é que o meu maior defeito não é ter mau-feitio (que tenho), nem ser teimosa (que sou), nem perfeccionista (tenho dias)... essas são algumas das minhas qualidades. Um dos meus (muitos) defeito é mesmo a dificuldade que tenho em pedir ajuda. Eu, que gosto de ajudar, que compreendo a importância e a necessidade de pedir ajuda na altura certa, tenho uma dificuldade imensa em pedir ajuda quando preciso.

Também é verdade que não estou à espera que ninguém adivinhe que preciso de ajuda (aquelas pessoas que ficam muito ofendidas porque a malta não sonhou que precisavam de nós ou que o sorriso era apenas uma máscara, tiram-me do sério) mas a minha tendência é enrolar-me em mim mesma, desaparecer por uns tempos, acentuar o mau feitio e tentar manter-me à tona de água.  E se é verdade que até agora tenho conseguido, a verdade é que já engoli alguns pirolitos e já apanhei uns sustos com as ondas maiores.

Voto para cancelar o Natal

Diz que o Natal é época de paz e amor, de família e confraternização. 

Na verdade é mas é uma data em que a vida atira à cara de quem não tem nada disso o facto de, precisamente, não o ter. 

Não há nada mais triste que ser lembrado do que não temos, seja família, seja carinho, seja saúde, seja felicidade.

Natal é época de atirar migalhinhas de calor e caridade a quem passa todos os outros dias sem isso. É dar com uma mão e tirar com a outra. É obrigar quem lhe apetece estar enroladinho, tipo bichinho de conta, a ser feliz, como se a felicidade fosse uma escolha (e se vierem para aqui dar uma de Gustavo Santos com essa merda da felicidade ser uma escolha e tal e coisa não respondo pelos meus actos nem palavras).

Ah e tal, mas no Natal o espírito de partilha e família, porque a família é o mais importante... Sim, é, TODOS OS DIAS DO ANO. 

Mas sim, vou fingir que estou com uma grande espírito natalício. Até fiz a árvore de Natal e tudo e tudo, já comprei os presentes que vou entregar com todo o carinho que tenho pelas pessoas. Faço-o para não ter que explicar que perdi o gene do Natal. Que, finalmente, compreendi a fantochada e crueldade que é, para tanta gente, este dia. 

Votos de Feliz Natal? Eu voto é para acabar com o Natal.

 

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D