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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

So, I really don't care

Dou por mim a não me interessar. Não é que esteja triste, deprimida ou o algo do género porque não estou. A minha vida não estará fabulosa mas está melhor do que em 90% do ano que passou e, para já, estou a curtir o tempo que tenho para respirar. E tenho interesses. Bastantes, até. Há montes de coisas que quero fazer, livros que quero ler, filmes que quero ver, pessoas com quem quero beber um café e passar tempo à conversa. Mas a maioria das pessoas...sinceramente, não me interessa. A verdade é que a maioria das pessoas não vive no mesmo mundo que eu, não acreditam no mesmo que eu, não lêem o mesmo que eu (nem percebem como é importante e porque me interesso pelos mundos escondidos nas páginas dos livros), não respeitam os mesmos valores que eu. Às vezes pergunto-me se não serão eles a estar certos. Mas a verdade é que não é uma escolha defender o que defendo, ser quem sou. Fiz-me assim ao longo dos anos e não queria ser de outra maneira. Não queria viver no presente sem me interessar com o que se passa à minha volta. Porque eu interesso-me por tudo o que se passa no mundo... só não me interesso pela maioria das pessoas que existem nesse mesmo mundo. Isto faz de mim uma pessoa assim a dar para o horrível, não é?

E então se pensar nalgumas pessoas em particular...não me interessa o que pensam de mim porque na maior parte do tempo não penso nelas. E quando penso já não sinto a tristeza que sentia. E se durante muito tempo lutei contra a urgência que sentia em procurar a proximidade que já tivemos, agora dou a por mim a pensar que não me apetece. Não me apetece explicar, não me apetece que me expliquem. Não quero saber. Exactamente como sei que essas pessoas não querem saber. 

Acho que só quero estar no meu canto, em silêncio, com as minhas pessoas - as importantes, as que estão à distância de uma gargalhada, com o gato e os peixes - já vos disse que tenho umas série de peixes novos? São o Bigodes, a Sardinha, a Fitz (eu pensava que era uma peixe, afinal é uma menina), a Karenina, o Soneca, o Dengonso, o Dunga, o Zangado e o Atchim, o Merlin (este é um caracol) e outro caracol e 2 camarões ainda por nomear (só chegaram cá a casa este fim de semana  e os nomes dos 7 anões estão destinados aos néons).

A ternura dos 40

Um dia teria que ser e teria que deixar de ter paciência para determinadas merdas. Acho que foi por, há algumas semanas, ter chegado aos 40 que dou por mim a responder a coisas que deixava passar por não me querer meter em confusões. Foram anos a tentar não dar murros em ponta de facas que é como quem diz, anos a tentar ser conciliadora e a querer manter-me longe de confusões nas redes sociais e afins. Essa atitude conciliatória já me valeu amizades, ao contrário do que poderia pensar - é que às tantas a falta de respeito que têm por nós ultrapassa os limites do aceitável e deixamos de conseguir aguentar. Depois de ter sido espalha brasas na adolescência, esforçadamente ponderada (coisas que nem sempre consegui, é certo) durante muitos anos, cheguei àquela fase em que simplesmente não quero saber e já não consigo aturar gente que não tem respeito pelos outros e cujos valores colidem com tudo aquilo em que acredito. 

...sabem onde podem pôr as flores hoje, não sabem?

“A todas as mulheres fortes e independentes desejamos um feliz dia!”

 

De uma forma ou de outra esta é a mensagem que passa. Feliz dia às mulheres fortes e independentes

Esta frase mostra, em parte, a importância deste dia. Vamos lá a ver se nos entendemos. Este dia não serve para comemorar a força e a independência das mulheres. Este dia serve para chamar a atenção para todas as mulheres que não têm o direito, nem as condições, para serem fortes nem independentes.

Este ano já morreram 13 mulheres às mãos de quem as deveria amar e acarinhar. A violência doméstica está na agenda do dia, houve um dia de luto, minutos de silêncio mas soluções, nada.  Quero muito enganar-me mas cheira-me que vai ser assunto para ser devidamente politizado e falado este ano, ano de eleições e depois relegado para a gaveta. Again. E não, a violência doméstica não é exclusivo das mulheres, mas ignorar que tem um efeito devastador nas mulheres é ser hipócrita e estúpido.

O feminismo, essa luta pela igualdade, continua a ser interpretado como “contrário de machismo” e a ser pelouro de “histéricas e gajas que odeiam os homens”. Mas há feminismo bom, sim. É aquele que é definido por alguns homens. Não pude deixar de me rir quando, na sequência do escândalo daquele juiz execrável, li que “nunca a causa feminista foi tão bem defendida como pelo RAP”. E quem não perceber a ironia disto (e que este comentário não tem nada a ver com o RAP), nem precisa continuar a ler…

A mutilação genital feminina continua a ser um problema mundial, o mercado sexual continua a ser uma realidade, os números das violações e abusos sexuais continuam a ser assustadores (e irrealistas). Mas o Me too é um “exageeeeero”!

Os números de mulheres em cargos importantes, cargos políticos, conselhos de administração  e afins continuam a ser ridiculamente baixos e ainda há quem considere que isso acontece por uma questão de (falta de) mérito. Estudos dizem que a igualdade só se atinge daqui cerca de muitos e muitos anos. Ah e nada como uma mesa de homens para “conversas no feminino” como vi hoje por aí…

O círculo da política mundial está a arrastar-nos de novo para o conservadorismo e subitamente ouve-se que “as meninas vestem rosa e os meninos vestem azul” e assusta-me para caraças porque eu gosto de azul e de toda uma panóplia de cores.

Ainda há quem ache que feminismo é coisa de mulheres e que machismo é coisa de homens…

E ainda há quem diga que “não é feminista, é pela igualdade”, quem “comemore” o dia da mulher e quem ofereça flores neste dia… sabem onde podem pôr as flores hoje, não sabem?

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Soubessem vocês a quantidade de vezes que digo para mim mesma: "não me pagam para isto".

Um dia faço greve para protestar relativamente às decisões que eu própria tomo.

 

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Quando o despertador tocou hoje nem queria acreditar no meu cansaço. E ainda é terça-feira. E amanhã o toque de alvorada vai ser ainda antes do sol nascer. Depois de uma semana com os níveis de adrenalina lá em cima, esta semana é de recuperação e vai ser muito difícil.  Precisava tanto de 24 horas de silêncio, de não ter qualquer horário ou obrigação, de não ter que olhar para o telefone, de não ter que pensar no que vai ser o almoço, o lanche ou o jantar. Só 24 horas. Não é pedir muito e, no entanto, é pedir demasiado.

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Isto das aparências é uma coisa engraçada. Ainda hoje, vi um tweet qualquer, que criticava um casal que, à mesma mesa, não conversava, olhavam para o telefone. Confesso que me apeteceu responder que "o melhor de um casamento é a possibilidade de ficar em silêncio" mas não me dei ao trabalho, sei que não iria ser bem interpretada e é demasiado cansativo explicar. Adoro ter uma relação em que podemos partilhar um silêncio, em que podemos passar uma tarde numa café, cada qual com o seu livro, jornal, telefone. É mais importante ser feliz que parecer feliz.

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2019 e ainda boa parte das pessoas acha que o dia da mulher serve para "comemorar" o facto de sermos do sexo feminino. Ainda se distribui flores nas empresas (as mesmas em que se olha de lado uma mulher que tem que sair mais cedo porque o filho ficou doente). Ainda se aplaude os homens que ajudam em casa. Ainda se diz que feminismo é o contrário de machismo.

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Há homens feministas e mulheres machistas. O feminismo não é de uso exclusivo feminino, é certo, mas é de uma lata descomunal quando se aproveita uma acção decente de um homem para catalogar como feminismo certo o praticado pelos homens e como inconsequente o das mulheres. Ah... a ironia.

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Não gosto do carnaval. São cá coisas minhas, coisas de infância, que me fazem associar carnaval a solidão. Nunca gostei de me divertir por obrigação, com data marcada e já descobri que o melhor do mundo, nessas datas (carnaval, passagem do ano, aniversários vários, dia dos namorados), é ficar enroscada no sofá, a ver um filme ou uma série após um jantar de petiscos, daqueles que puxam à conversa e a uma caipirinha feita em casa.

 

 

A importância de pedir ajuda

Uma das coisas que acho maravilhosas é que quando perguntamos a alguém qual o seu maior defeito a resposta é invariavelmente uma de três: "tenho um mau feitio dos diabos", "sou demasiado teimosa" ou "sou demasiado perfeccionista". (tb há a versão "sou demasiado boazinha" mas isso já entra, para mim noutra categoria e fica para outro post)

Claro que é normal que, numa situação em que nos pedem para revelarmos o pior que temos e somos, queiramos dar a volta à questão e mostrar que o nosso pior é, afinal, óptimo. Sim, porque neste contexto "demasiado teimoso" significa "sou perseverante, corajosa e não desisto"; "demasiado perfeccionista" significa "sou boa no que faço, gosto de o fazer bem feito" e "tenho um mau feitio dos diabos significa "tenho sangue na guelra, não sou amorfa e estou aqui para a luta". Em termos de contexto de trabalho todos estes "defeitos" são qualidades imensas (claro que se eu fosse uma entidade patronal e me dessem respostas destas, eu ia apenas revirar os olhos).

Em termos reais e sociais, qualquer uma destas três características  pode ser um problema grave. Um mau feitio dos diabos pode transformar-se num problema de raiva e de violência; a teimosia e o perfeccionismo levados ao extremo podem transformar-se em algo incapacitante. 

Mas pedir ajuda ainda não é algo em que pensemos. Aliás, acho que cada vez mais "pedir ajuda" é algo que evitamos fazer. Mesmo quando admitimos ter um problema, só o facto de nos sugerirem procurar ajuda - profissional ou não - nos põe à defesa. Pedir ajuda significa - demasiadas vezes - obrigarmo-nos a enfrentar e a admitir um problema. Pedir ajuda obriga-nos a des-enfiar a cabeça da areia (eu podia ter escrito "tirar" mas não era a mesma coisa). Pedir ajuda podia de facto transformar a nossa vida em algo melhor e mais fácil mas tirar-nos-ia o gostinho de dizer "eu consegui sozinha". Pedir ajuda podia salvar-nos a vida. Mas isso lá é importante?

A verdade é que o meu maior defeito não é ter mau-feitio (que tenho), nem ser teimosa (que sou), nem perfeccionista (tenho dias)... essas são algumas das minhas qualidades. Um dos meus (muitos) defeito é mesmo a dificuldade que tenho em pedir ajuda. Eu, que gosto de ajudar, que compreendo a importância e a necessidade de pedir ajuda na altura certa, tenho uma dificuldade imensa em pedir ajuda quando preciso.

Também é verdade que não estou à espera que ninguém adivinhe que preciso de ajuda (aquelas pessoas que ficam muito ofendidas porque a malta não sonhou que precisavam de nós ou que o sorriso era apenas uma máscara, tiram-me do sério) mas a minha tendência é enrolar-me em mim mesma, desaparecer por uns tempos, acentuar o mau feitio e tentar manter-me à tona de água.  E se é verdade que até agora tenho conseguido, a verdade é que já engoli alguns pirolitos e já apanhei uns sustos com as ondas maiores.

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