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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

Nunca sei se a ignorância é uma bênção ou se é apenas muito atrevida

As putas das certezas que temos em teoria......caem por terra assim que a realidade entra em acção.

Decisões que nos parecem fáceis, em teoria, questões sobre as quais temos uma opinião, uma certeza, e que às vezes até votamos em forma de referendo e, com a democracia em vigor,  a que damos força de lei transformam-se em dúvidas, em temas em que não queremos pensar.

Quem tem a capacidade de decidir sobre o direito que uma mulher tem de fazer um aborto ou de alguém optar pela eutanásia? Quem vê de fora, analisa, imagina o "e se fosse comigo"? Quem tem a distância suficiente para opinião de forma fria e objectiva? Quem passa por isso, quem tem que, efectivamente, tomar a decisão mesmo não o querendo fazer?

Já tive tantas certezas e tenho tantas dúvidas agora.

Nunca sei se a ignorância é uma bênção ou se é apenas muito atrevida.

 

publicado às 12:53

Palavras

É recorrentes, nas redes sociais, a discussão do "piropo", da sua utilização e (possível) criminalização. Não me dou ao trabalho de me meter em tais conversa (são, na maioria das vezes "conversas de surdos") mas, no outro dia, achei divertido ir assistindo a uma delas. Eram dois homens, um que dizia que um piropo tinha o objectivo de elogiar (e obviamente dava dois ou três exemplos de piropos inócuos e fofinho), o outro dizer que nenhuma mulher gostava de ouvir qualquer piropo, por mais fofinho que fosse, porque isso era uma intrusão no seu espaço pessoal. (podem imaginar como a conversa evoluiu, escalando para níveis ridículos)

Fiquei ali, a assistir à conversa e a pensar que ambos tinham e não tinham razão (e que nenhum deles ia aceitar tal coisa). É muito difícil explicar que na história do "piropo" contam mais as intenções que as próprias palavras. Claro que não estou a desvalorizar as palavras, há coisas que não são aceitáveis entre desconhecidos ou simplesmente conhecidos e que ditas a crianças são absolutamente revoltantes. As mesmas palavras, um piropo fofinho e inócuo dito com intenção de magoar, de diminuir, de humilhar vai fazê-lo em 99% dos casos.  O mesmo piropo fofinho e inócuo dito com intenção de elogiar e de mimar vai ,em 99% dos casos, originar pelo menos um sorriso.

Mas é quase impossível criminalizar a intenção, porque as palavras retiradas de contexto, retiradas do que se intui atrás das palavras, são meras palavras, que podem ser interpretadas consoante a intenção do leitor que, em 99% dos casos, a irá interpretar consoante a sua própria consciência e opinião sobre o assunto.

publicado às 16:55

Um voto, uma voz

Sempre que há eleições no horizonte tenho uma mega discussão com um amigo que insiste em não votar. Este ano já tinha decidido que não ia embarcar nessa outra vez mas tenho sina, sei lá, e saiu-me outro na rifa... lá houve nova discussão. 

Não consigo perceber como é que pessoas da minha idade se demitem de contribuir para a escolha de quem rege a sua vida. Eu sou a favor do voto obrigatório. Acho que apenas assim não votar seria efectivamente um protesto. Como o voto não é obrigatório, não votar é apenas preguiça e falta de respeito para com a sociedade em geral e com quem lutou pela democracia em particular.

infelizmente é muito difícil explicar a alguém que não votar não resolve nada e se limita a dar mais poder precisamente a quem dá mau nome à política e ao poder.

E invariavelmente dou por mim no meio de uma discussão inconsequente. 

Mas, e apesar de minha descrença na humanidade em geral (eu não era assim, caramba, eu era uma pessoa cheia de fé nos outros!) continuo a não desistir de pôr algum juízo em determinadas cabeças.

 

publicado às 21:30

Machismo ao contrário

Não sei qual é o contrário de machismo. Machismo é, por definição, a ideologia que defende que o homem é socialmente superior à Mulher. Ora, como feminismo não defende a superioridade da mulher em relação ao homem, então o feminismo Não é o contrário de machismo.

O que hoje li, num site que se assume como feminista e tem, efectivamente, tido um papel importante na luta pela igualdade de direitos, chocou-me. Não pelo conteúdo porque, apesar de não concordar e de me parecer uma imbecilidade, sou a favor da liberdade de expressão – independentemente do texto ser ou não um reflexo da minha opinião.

O que me chocou foi mesmo aquele texto ser publicado naquela plataforma por ser, do meu ponto de vista, tão discrepante dos valores que supostamente difundem. Aquele post mostra um bocadinho do que é o contrário do machismo. E eu sei que não feminismo.

Depois chocou-me a tentativa de demarcação, do grupo responsável pelo site, em relação ao conteúdo. Das duas uma, ou assumem que sancionaram o texto, aceitando o seu conteúdo e considerando-o relevante e de acordo com os valores que pretendem transmitir ou assumem que são uma plataforma de discussão de várias ideias e que é cada um por si – e aí não podem assumir que são uma plataforma feminista. E não o podem fazer porque este texto marcou um retrocesso na luta pela igualdade e destruiu a credibilidade que tinham.

O que me lixa é que passo boa parte do tempo a dizer que ser feminista não é ser contra os homens, é lutar pela igualdade de direitos, deveres e oportunidades de todos, Homens e Mulheres e agora tenho que ainda acrescentar que sim, sei que há quem se auto-denomine feminista e seja antes uma imbecil radical.

(e não há cá links nem publicidade para ninguém, se não sabem do que estou a falar, ignorem, ficam muito mais felizes)

publicado às 14:39

A melhor arma é o silêncio

Acredito mesmo nisto.

A melhor arma contra a palavra é o silêncio.

É certo que nem sempre é a necessária, às vezes o silêncio não chega quando em contraste com a monstruosidade das palavras, contra o negrume dos actos. Mas isso é outra história.

Mas contra as palavras venenosas de gente pequena? Aí não tenho dúvidas. O silêncio é mesmo a melhor arma.

Todos os dias leio palavras feias, daquelas que magoam, que destroem. Mas não as leio pela mão de quem as escreveu, vou aos poucos excluindo essas pessoas da minha vida, mas sim pela mão de quem as critica, de quem se insurge contra elas. Às vezes ao insurgir-se, limitam-se a propagar.

Sou, e sempre serei, a favor da liberdade de expressão. E como tantas vezes se cita quando se fala de liberdade de expressão "sempre lutarei para que tenhas a liberdade de dizer algo com o qual não concordo". Ser a favor da liberdade de expressão implica aceitar que outros digam coisas que nos magoam, com as quais não concordamos. E contra estas palavras escolho o silêncio.

O meu silêncio não significa que compactue com mensagens racistas, misóginas, homofóbicas, xenófobas. O meu silêncio é mais eficaz que as minhas palavras. O meu silêncio impede que eu seja um elo na propagação dessa mensagem. O meu silêncio significa o meu repúdio contra essa mensagem. O meu silêncio significa que não dou voz a essas vozes.

 

publicado às 13:04

Mas como é que deixam passar estas coisas? Triagem, pls.

Acabo sempre a questionar a inteligência desta gente. Falando apenas dos últimos casos, sou só eu que vi, imediatamente, que os casos do cartaz do BE, do João Soares e Joana Vasconcelos tinham TUDO para dar errado?

Meus caros,

Really? Associar uma imagem religiosa à adoção por casais homossexuais, ameaçar bater em alguém no facebook ou fazer um vídeo completamente egocêntrico… é óbvio que não funciona.

A minha questão é: nenhum destes personagens tem um assessor, um amigo, um empregado, o raio do operador de câmara, a malta que cola os cartazes, sei lá eu, que lhes digam: “NÃO, isso vai dar merda”?

Já que a vossa autocensura não funciona, paguem-me, que eu faço isso por vocês e não deixo que façam figuras tristes (exceto para o JS, não tenho pachorra para o tipo) e que estraguem campanhas maravilhosas e importante desviando a atenção para a v/ parvoíce. Porque vocês têm todo o direito a ser estúpidos, parvos, vazios, desinteressantes. Mas não deviam ter o direito de estragar o trabalho e o esforço dos outros, de dar meia dúzia de tiros nos pés das pessoas que vos escolheram para dar a cara por uma causa importante. A sério, autocensura.

 

A sério, mandem-me um mailito a dizer "P. quais são os perigos de dizer isto na internet?", se eu não conseguir descobrir o perigo não cobro nada. Mas aviso já que preço e estupidez têm uma relação de proporcionalidade direta.

 

publicado às 10:41

Mulher

Passei anos a ser a "maluca" por achar que o dia internacional da mulher não era para comemorar.

Ainda na adolescência e do alto das minhas certezas e privilégios, já tinha a sensação que não fazia sentido, sentia-me até um bocadinho ultrajada por existir tal dia e com a certeza de que algo estava errado. Achava, na altura, que era por não haver um Dia Internacional do Homem e as loucuras e celebrações que estavam na moda davam-me alguma (muita, vá) vergonha alheia.

Fui crescendo e comecei a aperceber-me que tinha e não tinha razão. Tinha, é ultrajante que haja um dia Internacional da Mulher. Não tinha, esse dia é, ainda e infelizmente, extremamente necessário.

Fui durante muito tempo, voz única entre os meus. Fico feliz (ou não, dependendo do ponto de vista)  pela minha voz se perder entre tantas vozes que hoje já gritam bem alto que este dia é um dia importante e triste. Extremamente triste. E com uma pontinha de alegria e orgulho por tudo o que já conquistámos.

Comecei a aperceber-me da importância do dia internacional da mulher enquanto lia. E comecei a olhar à volta. Comecei a conhecer pessoas, amigas até, que sofriam e sofrem de violência doméstica. Percebi que há meninas violadas porque sim. Que há meninas mutiladas porque sim. Que a mutilaçao genital feminina é uma realidade (e que este nome sonante mostra uma realidade que está para além das palavras). Mais tarde, bem mais tarde, percebi que mesmo na nossa sociedade ainda há muito caminho a percorrer.

Há umas semanas correu pelo facebook um vídeo  de um anúncio que foi saudado por inúmeros mulheres e que fazia a apologia do homem ajudar nas tarefas da casa. Partilhei-o com a frase "o problema é a palavra AJUDA". Quase não tive reações (bem hajam a alguns homens que perceberam exactamente onde queria chegar). Mas (mais) uma foto do meu gato não passa despercebida. 

E neste dia internacional da mulher fiquei sem saber o que fazer. Não me apetece pregar aos peixes, nem aos parvos. Ando descrente nas gentes e nas mulheres e nos homens. E assim, quando ontem, me ofereceram uma flor, engoli em seco, agradeci e deixei-a em cima da mesa toda a noite. Vai durar pouco mas vou-me lembrar que foi uma mulher quem ma ofereceu. E também me vou lembrar que o meu marido, amor da minha vida, me conhece tão bem que quase entrou em pânico quando viu que  me tinham oferecido a dita rosa. Ele, só ele, me restaurou a fé que um dia, homens e mulheres vão ser iguais em direitos e deveres. Porque hoje não são.

 

publicado às 13:02

Palavra, emoji ou simplesmente uma grande estupidez

O pessoal do Oxford Dictionaries decidiu considerar um emoji (uma imagem com um sorriso e lágrimas de alegria) como a palavra do Ano de 2015.

Não duvido que esta decisão tenha agradado a imensa gente que a vê como uma decisão visionária. Afinal a necessidade de comunicar de forma rápida e fácil é inegável. Num mundo em que estamos constantemente online e em que todos os outros estão online também, a única forma de conseguirmos dar atenção a todos de igual forma é fazê-lo de uma forma extremamente eficaz (ou corremos o risco de ser esquecidos – e toda a gente sabe que não existir num mundo virtual é não existir de todo) e os emoji dão uma ajuda imensa.

Acredito que ao legitimar este género de merdice colocando-o ao nível de “palavra do ano” (atribuído por uma instituição que inclui a palavra “OXFORD”) damos mais um passo na direção contrária à que deveríamos.

Um aparte para exemplificar o meu ponto de vista: No outro dia estive a ouvir (ou a ler, não me lembro das circunstâncias específicas) alguém a falar da inexistência de palavras na língua Árabe para falar de feminismo ou direitos das mulheres. Não é uma questão formal, é uma questão de simplesmente não existirem termos que permitam essa discussão. É interessante pensarmos nas consequências práticas da não existência de palavras…

Eu não tenho qualquer problema com os emoji (uso-os tanto como qualquer outra pessoa que utilize as redes sociais) e acredito que, às vezes (mas só às vezes) “uma imagem vale mais que mil palavras” mas acredito que considerar um boneco como palavra do ano é legitimar a limitação das emoções à meia dúzia de bonecos disponibilizados, é regredir no tempo (o desenvolvimento da língua nasceu da complexidade do que pretendemos transmitir) e que, a médio e a longo prazo, a consequência desta limitação na comunicação será até perigosa.

Poderia falar também no poder da palavra (inconsequente num emoji), na beleza de um poema ou da prosa poética ou na magia de um livro…  mas limito-me a deixar a definição de “Palavra”.

 

pa·la·vra
(latim parabola, -ae)

Substantivo feminino

  1. [Linguística] [Linguística] [Linguística] Unidade linguística com um significado, que pertence a uma classe gramatical, e corresponde na fala a um som ou conjunto de sons e na escrita a um sinal ou conjunto de sinais gráficos. = TERMO, VOCÁBULO
  2. Mensagem oral ou escrita (ex.: tenho que lhe dar uma palavra).
  3. Afirmação ou manifestação verbal.
  4. Permissão de falar (ex.: não me deram a palavra).
  5. Manifestação verbal de promessa ou compromisso (ex.: confiamos na sua palavra).
  6. Doutrina, ensinamento.
  7. Capacidade para falar ou discursar.

Interjeição

  1. Exclamação usada para exprimir convicção ou compromisso.


"Palavra", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/palavra [consultado em 23-11-2015].

 

publicado às 11:16

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