Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

Palavras

É recorrentes, nas redes sociais, a discussão do "piropo", da sua utilização e (possível) criminalização. Não me dou ao trabalho de me meter em tais conversa (são, na maioria das vezes "conversas de surdos") mas, no outro dia, achei divertido ir assistindo a uma delas. Eram dois homens, um que dizia que um piropo tinha o objectivo de elogiar (e obviamente dava dois ou três exemplos de piropos inócuos e fofinho), o outro dizer que nenhuma mulher gostava de ouvir qualquer piropo, por mais fofinho que fosse, porque isso era uma intrusão no seu espaço pessoal. (podem imaginar como a conversa evoluiu, escalando para níveis ridículos)

Fiquei ali, a assistir à conversa e a pensar que ambos tinham e não tinham razão (e que nenhum deles ia aceitar tal coisa). É muito difícil explicar que na história do "piropo" contam mais as intenções que as próprias palavras. Claro que não estou a desvalorizar as palavras, há coisas que não são aceitáveis entre desconhecidos ou simplesmente conhecidos e que ditas a crianças são absolutamente revoltantes. As mesmas palavras, um piropo fofinho e inócuo dito com intenção de magoar, de diminuir, de humilhar vai fazê-lo em 99% dos casos.  O mesmo piropo fofinho e inócuo dito com intenção de elogiar e de mimar vai ,em 99% dos casos, originar pelo menos um sorriso.

Mas é quase impossível criminalizar a intenção, porque as palavras retiradas de contexto, retiradas do que se intui atrás das palavras, são meras palavras, que podem ser interpretadas consoante a intenção do leitor que, em 99% dos casos, a irá interpretar consoante a sua própria consciência e opinião sobre o assunto.

publicado às 16:55

Azul, rosa, cinza ou da cor que quiserem

Um  dia ainda vão perceber que quem defente a igualdade de género não pretende tornar o mundo cinzento nem de cor neutra. Não pretende uniformizar nada. Pretende, pelo contrário, permitir a diferença, permitir que cada um escolha o seu destino, as suas cores, os seus tons. 

Um dia vão perceber que quem defende a igualdade de oportunidades, deveres e direitos para todos não tem como objectivo censurar nada mas sim permitir que cada um escolha sem que haja uma censura prévia.

Um dia... espero eu.

 

publicado às 00:21

Cenas de uma feminista histérica #2 *

Sou assumidamente feminista. Conheço imensa gente que é tão feminista como eu e que não se assume como tal porque ainda considera que ser feminista é ser algo que não é.

Para deixar tudo bem claro: Ser feminista é defender que haja igualdade de oportunidades, direitos e deveres para homens e mulheres.

Ser feminista não é achar que não há qualquer diferença entre homens e mulheres, não é querer uniformizar o que não é uniformizável, não é não gostar de homens, não é achar que as mulheres são superiores aos homens. 

E não é ser histérica.  

Olhar para a definição de histeria no dicionário (Priberam) percebemos o quão machista é a utilização desta palavra neste contexto:

his·te·ri·a 
(grego hustéra-asútero + -ia)
substantivo feminino

1. [Psicanálise]  Doença nervosageralmente com manifestação de sintomas como convulsõescontracturas ou paralisiasantigamente associada às mulheres. = NEUROSE

2. Tipo de comportamento com grandeintensa ou ruidosa manifestação de emoção.

3. Índole caprichosa.

Que há pessoas que são imbecis já todos sabemos. No news there. E tenho tendência a ignorar, não dar importância. Passo muito tempo da minha vida a dizer "liberdade de expressão, toda a gente tem direito a ser idiota" mas confesso que estou a ficar um bocado farta desta moda que é desvalorizar, diminuir e compartimentar as pessoas que defendem o feminismo.

O humor, que tem um papel fundamental nestas questões de lutas pelos direitos humanos, politicos e sociais, tem tido um papel agridoce neste questão. 

É fácil e dá milhoes caricaturar o feminismo. Caricaturou-se o feminismo, transformando-o num insulto, associando a palavra a imagens de "mulheres à beira de um ataque de nervos, estúpidas, cheias de ódio aos homens". 

Eu defendo a liberdade de expressão, acho que quase tudo é permitido no humor e aceito que também esta atitude é uma prerrogativa desta liberdade. Acho é que é preguiça por parte dos humoristas (sejam profissionais ou apenas das redes sociais). É a piada fácil, a que vai ao encontro do machismozinho ainda incrustado em cada um nós. É a piada fácil (mas nunca, nunca, nunca reflecte o que humorista acha - ele defende sempre o feminismo certo portanto ele pode fazer estas piadas, geralmente ele até "ajuda em casa") que faz com que a resposta certa - a que consegue maior taxa de aprovação - seja "ahahah, eu sou mulher mas não sou feminista". A resposta "és um bocado parvo" (ou coisa do género) promove uma escalada de reacções que culmina com o clássico mas sempre na ordem do dia "és mal fodida".

Estou muitos habituada a ver a utilização da palavra "feminista" como um palavrão, como um insulto mas confesso que tremi quando me apercebi alguém resolver tornar a coisa... ainda mais grotesta gourmet: feminazis. 

 

* No próximo post o título vai mudar para algo mais aceitável, ainda não sei bem é o quê.

publicado às 10:20

cenas de uma feminista histérica #1

Estalou ontem a polémica com uma conhecida editora por esta vender 2 manuais de actividades para crianças entre os 4 e os 6 anos com capas/conteúdo ligeiramente diferente. Uma para rapazes e outra para meninas. 

Vou já começar por admitir que não concordo com o escândalo sobre o conteúdo. Não me incomoda que um dos livros tenha alguns exercícios com grau de dificuldade diferente. Não vejo nisso nenhuma conspiração para não preparar bem as meninas nem acho que isso signifique que elas são menos inteligentes/capazes. Aconteceu! Supostamente os livros deveriam ter um grau de dificuldade semelhante mas isso é quase impossível a não ser que sejam iguais - o que ainda seria mais estúpido.

 O que me incomodou mesmo foi haver livros de actividades diferentes para rapazes e para meninas. Até a porra da designação é sexista: rapazes e meninas. Não Rapazes e Raparigas nem Meninas e Meninos (mas vou deixar para lá esta diferença menor, não quero ser assim tão picuinhas).

O que me incomoda nesta "brincadeira" é o preconceito que leva uma editora com cartas dadas e uma responsabilidade acrescida na área da educação a distinguir actividades para meninos e para meninas, a embarcar na associação de determinadas actividades a um género específico. Incomoda-me que se considere normal fazê-lo.

Espero que o rosa e o azul nunca sejam banidos da nossa vida. Rosa, era a minha cor favorita em miúda e azul é uma das minhas cores favoritas hoje. Nem quero que as bonecas ou os berlindes sejam banidos das lojas. E acho uma fofura que sejam vendidas mini-cozinhas, mini-vassouras ou mini-baldes de esfregona. O que incomoda é que uma menina que prefira os berlindes acabe com a puta da boneca e um menino que adorava brincar com o balde de esfregona seja obrigado a fazer corridas de mini-carros. O que incomoda é que haja preconceito e o puto acabe a mudar as fraldas ao homem-aranha porque o sonho daquele Natal era ter recebido um boneco que faz xixi.

E aqui nos livros, incomoda-me que um pai/mãe/avó diga a um miúdo "esse não, que é para meninas e tu não és uma menina, pois não?" ou "esse é para rapazes, não é para ti".

E isto incomoda-me porque dizer a uma criança de 4 a 6 anos que o mundo é compartimentalizado e que há coisas que lhes estão vedadas é triste e cruel. E perigoso, porque naquela idade eles têm tendência a acreditar nos pais, mesmo que estes sejam uns filhos da puta.

 

*um dia destes explico o título, que o dia de ontem e de hoje deu-me material para vários posts...

 

 

publicado às 16:49

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D