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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

Pela diversidade e pela identidade

Salvador Sobral ganhou-nos a Eurovisão com uma música cantada em português e sem fogo-de-artifício. Numa noite em que se devia celebrar a diversidade a maioria das músicas foram cantadas em inglês o que significou que boa parte da população desses países não foi representada. Dir-me-ão vocês que o Salvador provou que não é necessário perceber a letra para gostar da música e eu respondo-vos que o que Salvador provou foi que cantar com amor e em nome próprio ainda (tem dias) vale a pena.

Na noite em que o miúdo que canta "Amar pelos dois" se apurou para a Eurovisão li uma série de comentários no Twitter  (adoro seguir estas cenas no twitter) de miúdos (só se lhes perdoa pela idade) a "chorar" que íamos ser diferentes dos outros e que não cantando em inglês, não sendo igual aos outros, íamos perder outra vez. Espero que esta vitória sirva, ao menos, para fazer este miúdos, para fazer-nos a todos, pensar no que queremos para a nossa identidade. Nada contra cantores portugueses cantarem em inglês se assim o desejarem. Tudo contra cantores portugueses cantarem em inglês porque acham que só assim têm sucesso.

Uma música deve expressar a identidade, o talento, a arte, os sentimentos de quem canta. Não pode, não deve, ser apenas um negócio. 

Não tenho ilusões e sei que isto vai mudar nada, ou pouco. Os concursos televisivos vão continuar a ter maioritariamente concorrentes que desprezam a língua portuguesa. As rádios vão continuar a passar pouca música portuguesa e a que passam é escolhida a dedo. Eu vou continuar a não fazer parte da maioria e vou continuar a ser a pessoa estranha que gosta de ouvir música em português e que gosta de ouvir os poemas das músicas (talvez por isso tenha sido das poucas pessoas a ficar feliz com o prémio nobel da literatura dado a Bob Dylan). Mas talvez alguns miúdos queiram ser como o Salvador e a Luísa e ousem ser originais.

Diversidade e identidade. 

publicado às 12:42

Novelas mexicanas

Todos os dias há mais uma polémica nas redes sociais. Labaredas de fogo-fátuo que no dia seguinte ninguém já se lembra, de tão ocupados com a nova polémica que surgiu. Seguir algumas destas polémicas é mais ou menos a mesma coisa que seguir uma novela mexicana. Há os protagonistas, os personagens secundários, o núcleo do humor e o vilão. Há, do outro lado da barricada, quem assista no sofá, quem opine nas revistas da especialidade (aka facebook e/ou Twitter), há quem veja outro canal e outra novela. A malta sofre, vive aquilo com uma intensidade tremenda mas depois, no final do dia, vai dormir e esquece o assunto, porque uma novela tem sempre um peso relativo na nossa vida.

E os vilões às vezes são castigados a sério, às vezes atinge-se resultados. Mas na maioria dos casos o que sobra destes fogos-fátuos são vitimas colaterais, de quem ninguém mais sabe nem quer saber.

publicado às 11:30

A melhor arma é o silêncio

Acredito mesmo nisto.

A melhor arma contra a palavra é o silêncio.

É certo que nem sempre é a necessária, às vezes o silêncio não chega quando em contraste com a monstruosidade das palavras, contra o negrume dos actos. Mas isso é outra história.

Mas contra as palavras venenosas de gente pequena? Aí não tenho dúvidas. O silêncio é mesmo a melhor arma.

Todos os dias leio palavras feias, daquelas que magoam, que destroem. Mas não as leio pela mão de quem as escreveu, vou aos poucos excluindo essas pessoas da minha vida, mas sim pela mão de quem as critica, de quem se insurge contra elas. Às vezes ao insurgir-se, limitam-se a propagar.

Sou, e sempre serei, a favor da liberdade de expressão. E como tantas vezes se cita quando se fala de liberdade de expressão "sempre lutarei para que tenhas a liberdade de dizer algo com o qual não concordo". Ser a favor da liberdade de expressão implica aceitar que outros digam coisas que nos magoam, com as quais não concordamos. E contra estas palavras escolho o silêncio.

O meu silêncio não significa que compactue com mensagens racistas, misóginas, homofóbicas, xenófobas. O meu silêncio é mais eficaz que as minhas palavras. O meu silêncio impede que eu seja um elo na propagação dessa mensagem. O meu silêncio significa o meu repúdio contra essa mensagem. O meu silêncio significa que não dou voz a essas vozes.

 

publicado às 13:04

Já só falta deixar um paninho para limpar a mesa*

Num café/bar onde um um café custa um euro (ou mais) não é aceitável:

  • copos de plástico
  • talheres de plástico
  • que sejam os clientes a levantar a mesa

*se bem que umas tolhitas para que pudessemos limpar/desinfectar a mesa ANTES não era má ideia, que cada vez que vejo os panos usados para as "limpezas" tenho vontade de me ir embora na hora...

publicado às 19:53

Há dias em que não é fácil ser eu

Ia escrever um texto acerca de como a percepção das coisas muda, de como fiquei tão ofendida quando me impediram de progredir profissionalmente por causa da idade e de como hoje percebo a razão que tinham e agradeço o terem-me livrado de me tornar numa pedante e ainda por cima má profissional. Ia também acrescentar que sempre me irritou o paternalismo com que me olhavam quando eu tinha menos 15 ou 20 anos do que tenho agora e de como me sinto a olhar alguns miúdos exactamente com o mesmo sentimento (tabefes, a vontade que tenho às vezes de desatar aos tabefes e depois penso que são filhos dos outros e fico tão mais descansada). Mas dou por mim a ter receio de estar, outra vez, a dizer asneiras e calo-me.

Há dias em que não é fácil ser eu.

publicado às 14:41

Não querem saber, pois não?

A todos os que reviram os olhos quando digo que "gosto de chuva",

 

Caríssimos, 

Soubésseis vós o que é acordar com dor de cabeça e assim continuar todas as horas, minutos e segundos do dia...

Soubésseis vós que estas horas se parecem multiplicar, esticar e tornar-se eternas enquanto aquela dor que começa por ser uma moinha irritante se avoluma, cresce e às tantas parece uma ceifeira debulhadora a dar-me cabo dos neurónios, que, infelizes, entram em greve e me fazem sentir burra...

Soubésseis vós o quanto, nestes dias, o sol me agride, me faz sentir que os olhos vão saltar das órbitas tal qual um boneco animado...

Soubésseis vós o quanto as putas das alergias me incomodam e tornam infeliz...

Soubésseis vós isso e provavelmente continuariam a revirar os olhinhos quando eu digo que gosto de chuva, continuavam a chorar por sol e primavera o ano inteiro.

E eu, depois de 3 dias disto, só consigo dizer, inverno, volta, por favor.

E antes que me digam: "anti-histamínicos" eu digo já que esses que comprimidos dos céus me dão um sono terrível, incapacitante e que é absolutamente impossível tomar algum durante o dia. Mas assim que chegar a casa tomo 1, aterro no sofá e morro para o mundo até amanhã.

Hoje está especialmente mau.

Espero que me compreendam um bocadinho melhor agora,

P.

 

publicado às 15:15

Palavras

As palavras são só palavras, excepto às vezes em que deixam de ser só palavras e se tornam outra coisa qualquer.

As palavras que eram só palavras e nas bocas de uns se tornam insultos, armas ou pedras, começam a carregar um peso que não têm, que nunca tiveram e que não deveriam ter. 

E o problema é que, às tantas, para não usarmos palavras que se tornaram armas nas bocas de outros, deixamos de usar essas palavras, limitamos a nossa capacidade de comunicação, distorcemos sentidos, intenções e ficamos com medo das palavras.

Eu não gosto de ter medo das palavras. Compreendo e fico maravilhada com o poder das palavras mas recuso-me a discriminá-las. Recuso-me a limitar o meu mundo, porque o meu mundo de sonho é composto por palavras, por tantas palavras. E sei que cada uma dessas palavras tem o peso que lhe é atribuído por quem as diz, por quem as ouve. Por isso pauto a minha vida pelo peso que eu dou às palavras e não pelo peso que alguém, algures, decidiu que elas tinham.

publicado às 15:42

Alienação de direitos

Ainda fico surpreendida quando me apercebo que há tanta gente, e gente supostamente informada, que não vê mal em expor em blogs e redes sociais as caras e personalidades dos filhos e pais. Crianças e adolescentes, pais e avós, que sem terem o direito de escolha têm os seus 0,5 microssegundos de pseudo-fama são expostos e virtualmente dissecados por amigos, leitores e afins. Não percebo as homenagens aos mortos (pf, deixem-me em paz e na companhia da bicharada quando eu morrer, tá?), os RIP* virtuais, os Parabéns virtuais a pessoas que nem sabem o que é o facebook. No dia da mãe vamos assistir mais uma vez (vamos  é como quem diz, que eu espero andar na folia nesse dia e nem sequer ligar a internet) à sucessão de fotos "mãezinha querida", sendo que a querida mãzinha de alguns estará sozinha em casa só com direito a um telefonema rápido.

Já eu assusto-me todos os dias com a facilidade com que o direito à privacidade e à individualidade nos é retirado ("mas se é a bem da segurança"**) e ainda mais com a facilidade com que nós oferecemos informações e dados pessoais. 

 

 * as siglas nos cemitérios fascinam-me -sim, sou uma pessoa estranha - e no outro dia passei imenso tempo até descobrir o que queria dizer PNAM numa lápide. Mas nada bate o "e o diabo o levou" que um dia encontrei.

**torno-me violenta se me dizem isto novamente

publicado às 10:24

A minha tribo

Sempre vivi entre o campo e cidade, saltitando com facilidade entre um e outro grupo. Na verdade esta facilidade era, por vezes, esforçada, fabricada, pouco natural. Sempre me senti parte da tribo mas não completamente. Percebem o que quero dizer?

Na aldeia era meio estranha, ouvia música um bocadinho diferente, achava que tinha direito ao mesmo que os rapazes (e felizmente a minha mãe também), gostava de andar de skate e patins, lia livros e jogava às cartas e ao berlinde. Na cidade era meio estranha, vivia longe da família, tinha liberdade e nunca estava disponível nas férias e nos fins de semana – ia para a aldeia. E claro, ouvia música um bocadinho diferente, achava que tinha direito ao mesmo que os rapazes, conhecia todos os cães da vizinhança (apesar de não conhecer os vizinhos) e lia livros.

Na aldeia não tinha biblioteca, exceto a da minha casa, na cidade, era das poucas que frequentava a biblioteca, onde rapidamente deixaram de me tentar orientar nas leituras (tentavam, de início, que as crianças lessem o que era adequado à sua idade – comigo isso durou cerca de 2 semanas).

Ainda hoje me sinto assim, estranha mesmo onde pertenço e precisei de chegar à idade adulta para encontrar a minha tribo, cheia de pessoas diferentes, vindas de todo o mundo, que falam a mesma língua que eu. Pessoas com quem consigo ser eu, esta mistura de serra, mar e cidade e continuar a ser meio estranha e isso, finalmente, não ser nada estranho.

publicado às 10:50

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