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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

da diferença entre liberdade de expressão e de acção

Hoje venho tentar pôr em palavras algo que me anda a incomodar um bocado e que tenho alguma dificuldade em expor de forma clara.

Comecemos este exercício por imaginar uma qualquer polémica (não é difícil, pois não?) que incendeia as redes sociais.

Das redes sociais, a coisa salta para a TV, da TV para todas as pessoas que, estando nas redes sociais, ainda não tinham comentado a questão.

Ora, como as redes sociais são um reflexo da sociedade (mas ainda mais reivindicativos) há nestas uma igual quota parte de gente parva.

Até aqui nada de estranho.  A globalização e a facilidade de informação faz com que pouco ou nada passe despercebido. É positivo que a sociedade civil tenha uma palavra a dizer e seja opinativa. O problema vem, na minha opinião, depois.

Começa a ser normal que as autoridades, seja sob a forma de associações, comissões, várias “autoridades”, assembleia da republica ou até o ministério público resolvam agir. A maioria destas acções são, ou parecem ser, precipitadas. Estas acções parecem ser consequência directa das reclamações da sociedade civil.

Depois é a loucura. Deixa de se discutir a questão e passa a discutir-se a força das redes sociais, a parvoíce das redes sociais, o poder das redes sociais. Passa a discutir-se a democracia (o que seria positivo se não fosse tantas vezes trágico). Põe-se em causa a legitimidade da emissão das opiniões e das reivindicações. Põe-se em causa a liberdade de expressão.

Ora, dando um passo atrás, eu não quero limitar a liberdade de expressão de ninguém. Eu quero ter a liberdade de me insurgir e de, no Twitter ou no Facebook, dizer meia dúzia de parvoíces, ser chamada à razão, ouvir outros argumentos, desabafar.

Eu não quero que, por causa das minhas opiniões infundadas, de leiga, sejam tomadas decisões imponderadas. Quero, enquanto membro da sociedade civil, contribuir para uma discussão, dar o meu contributo à democracia. Não quero ser parte do problema.

É importante que a opinião publica seja ouvida e levada em conta. É igualmente importante que quem toma decisões, o faça sem medos e sem constrangimentos e com base em factos e argumentos válidos.

Calar a turba não é, sequer, uma possibilidade válida hoje em dia. Ter medo dela, agir a “toque de caixa” ou às mãos dos utilizadores das redes sociais também não deveria ser.

Uma das consequências de tudo isto é que as opiniões ponderadas cada vez têm menos espaço nas redes sociais – e como tal nestas decisões de que falo -seja porque os ponderados cada vez se afastam mais, seja por não estarem na moda. Todos nós sabemos que não são as opiniões ponderadas que chegam longe, que são discutidas, rebatidas, comentadas. São as parvoíces, são os extremismos, que são aclamados, difundidos.  Aliás, as opiniões ponderadas são, na sua maioria, massacradas nas redes sociais que vivem do “ou és por mim ou contra mim”. Basta conhecer um bocadinho da essência das redes sociais para não as levar completamente a sério. São excelentes para estar dentro de todos os assuntos, mas é necessário um enorme trabalho de separação do trigo e do joio para dali retirar o que de positivo elas têm.

publicado às 11:27

Falemos de... liberdade de expressão

Confesso-vos, estou um bocado aterrorizada. Medinho, cagufa daquela séria. 

A verdade é que tenho visto muita gente, miúdos, jovens, adultos, homens, mulheres, de tudo um pouco, a defender limites à liberdade de expressão. E isso aterroriza-me.

Vamos lá pôr os pontos nos iiis.

Defender a liberdade de expressão sem limites não é defender que que se pode dizer tudo IMPUNEMENTE. Quer apenas dizer que podes dizer tudo o que não configura crime sem ir de cana ou levar um tiro nos cornos. E que podes dizer o que configurar crime e ser condenado por isso por quem de direito.

Defender a liberdade de expressão sem limites não significa que concordes com todas as barbaridades que são ditas por aí, significa que respeitas os outros o suficiente para os considerar grandinhos o suficiente para ter bom senso e para (principalmente para) aceitar as consequências dos seus actos e palavras.

Preocupa-me que se ponha sequer a hipótese de voltar a ter uma sociedade com censura.. Preocupa-me que haja quem acha quem o defenda com unhas e dentes. Preocupa-me mesmo muito.

 

 

 

publicado às 15:10

um aparte

Quem me conhece sabe que não sou pessoa para me impor a ninguém. Tirando os amigos de casa, aqueles com quem me chateio a sério, com quem grito e admito que me gritem, não sou daquelas amigas cola. Não chateio os meus amigos informáticos quando tenho problemas no computador, não peço receitas nem baixas aos meus amigos médicos. Tento sempre respeitar os outros, dar-lhes a liberdade de ir embora quando querem e sem perguntas. Costumo dizer que não obrigo ninguém a gostar de mim. Mas se há merda que me tira do sério é ignorarem-me compulsivamente. 

Sim, o silêncio também é um tipo de resposta. O problema é que por norma eu não entro em paranóia se não me respondem. Acho normal, acontece. Nem se não me telefonam - não é o fim do mundo. E às tantas já não sei se a pessoa está mesmo a tentar afastar-se sem ter a coragem de me mandar à merda directamente ou se simplesmente aconteceu. Enfim, um dia, saberei. Ou não, também não faz grande diferença.

 

publicado às 23:30

Um voto, uma voz

Sempre que há eleições no horizonte tenho uma mega discussão com um amigo que insiste em não votar. Este ano já tinha decidido que não ia embarcar nessa outra vez mas tenho sina, sei lá, e saiu-me outro na rifa... lá houve nova discussão. 

Não consigo perceber como é que pessoas da minha idade se demitem de contribuir para a escolha de quem rege a sua vida. Eu sou a favor do voto obrigatório. Acho que apenas assim não votar seria efectivamente um protesto. Como o voto não é obrigatório, não votar é apenas preguiça e falta de respeito para com a sociedade em geral e com quem lutou pela democracia em particular.

infelizmente é muito difícil explicar a alguém que não votar não resolve nada e se limita a dar mais poder precisamente a quem dá mau nome à política e ao poder.

E invariavelmente dou por mim no meio de uma discussão inconsequente. 

Mas, e apesar de minha descrença na humanidade em geral (eu não era assim, caramba, eu era uma pessoa cheia de fé nos outros!) continuo a não desistir de pôr algum juízo em determinadas cabeças.

 

publicado às 21:30

Solteiros contra Casados

Confesso que pensei chamar a este post "GALP, BP ou CEPSA" ou "EDP vs Endesa" mas preferi usar uma expressão divertida, que me deixa de bem com a vida e que me faz lembrar um célebre jogo de futebol onde, às páginas tantas  (leia-se "quase no final do jogo"), se reparou que o árbitro estava de chinelos e uma das equipas tinha um elemento a mais. Mas rimo-nos até nos doer a barriga, houve insultos qb (generalizou-se a private joke da aldeia de "solteiros, olé!") e ficou toda a gente amiga na mesma.

A verdade é que posso dizer que "detesto futebol". Continuo a divertir-me imenso nos "solteiros contra casados" desta vida, acho que o desporto em si até é entusiasmante, até acho piada à atmosfera de união em redor da selecção nacional mas cada vez mais detesto o negócio do futebol (e que não sobre margem para dúvidas - isto não é nenhuma paixão para os envolvidos - é um negócio). O que me surpreende é a importância que tanta gente dá aos resultados destas empresas, o tempo que se perde a discutir o indiscutível, a ofensa que é alguém ser de outro clube ou dizer uma parvoíce qualquer em relação ao clube em questão.

Talvez eu não prestasse tanta atenção antes mas tenho a sensação que as coisas mudaram drasticamente nos últimos anos, que se saltou para um campeonato completamente diferente, que me preocupa e enoja.

publicado às 15:15

service not included

Se há coisa que me deixa sempre desconfortável é a questão da gorjeta. Não falo de umas moedas deixadas em cima da mesa após um jantar porreiro. Falo da obrigatoriedade ou não de a dar. Falo de gratificar um serviço que não pedi nem quero (por exemplo que carreguem a minha mochila para um quarto de hotel) ou de um serviço prestado com má cara ou má vontade.

Até há pouco a minha ideia de gorjeta era a de pura gratificação e hábito. O empregado de mesa até foi um porreiro e não nos deixou pedir a sobremesa de ontem? Então, sim, a malta junta-se e deixa-lhe algum dinheiro em cima da mesa. Mas no geral eu sou aquela pessoa que não regateia preços, compro quando acho o preço justo, quando posso e quero comprar. E por norma, acho que o salário do funcionário faz parte do serviço/bem que estou a comprar e como tal não lhe devo mais nada.

O problema é que o que é normal para mim, aparentemente, não o é para muitos patrões. 

A verdade é que já começamos a ver "service not included" na conta de certos restaurantes cá em Portugal, deixando ao cliente a decisão de pagar ou não ao funcionário. 

A minha primeira reacção é não voltar a tal restaurante mas a verdade é que provavelmente ali pagam ao empregado o salário mínimo e o resto são as "gorjetas", exactamente como em qualquer outro restaurante. Simplesmente ali há um "empurrão extra" para que o cliente deixe efectivamente a tal percentagem que cabe ao "serviço". E a verdade é que aquele miúdo que está em "formação" é um estagiário que não recebe nada a não ser a tal gorjeta. E eu tenho um grave problema com a ideia de "trabalho não remunerado". 

Não consigo aceitar que a gorjeta seja mais do que um extra bem-vindo. Mas também não consigo achar justo que alguém trabalhe de borla. Fico sempre na dúvida se, ao dar a gorjeta, estou a alinhar nesta exploração ou se estou a minimizar uma injustiça. De qualquer das formas, a problemática dos 10 ou 15% (a sério, o que se dá de gorjeta qdo se vai beber um café a um sítio com "service not included"?) continua a azucrinar-me o juízo.

publicado às 19:34

Machismo ao contrário

Não sei qual é o contrário de machismo. Machismo é, por definição, a ideologia que defende que o homem é socialmente superior à Mulher. Ora, como feminismo não defende a superioridade da mulher em relação ao homem, então o feminismo Não é o contrário de machismo.

O que hoje li, num site que se assume como feminista e tem, efectivamente, tido um papel importante na luta pela igualdade de direitos, chocou-me. Não pelo conteúdo porque, apesar de não concordar e de me parecer uma imbecilidade, sou a favor da liberdade de expressão – independentemente do texto ser ou não um reflexo da minha opinião.

O que me chocou foi mesmo aquele texto ser publicado naquela plataforma por ser, do meu ponto de vista, tão discrepante dos valores que supostamente difundem. Aquele post mostra um bocadinho do que é o contrário do machismo. E eu sei que não feminismo.

Depois chocou-me a tentativa de demarcação, do grupo responsável pelo site, em relação ao conteúdo. Das duas uma, ou assumem que sancionaram o texto, aceitando o seu conteúdo e considerando-o relevante e de acordo com os valores que pretendem transmitir ou assumem que são uma plataforma de discussão de várias ideias e que é cada um por si – e aí não podem assumir que são uma plataforma feminista. E não o podem fazer porque este texto marcou um retrocesso na luta pela igualdade e destruiu a credibilidade que tinham.

O que me lixa é que passo boa parte do tempo a dizer que ser feminista não é ser contra os homens, é lutar pela igualdade de direitos, deveres e oportunidades de todos, Homens e Mulheres e agora tenho que ainda acrescentar que sim, sei que há quem se auto-denomine feminista e seja antes uma imbecil radical.

(e não há cá links nem publicidade para ninguém, se não sabem do que estou a falar, ignorem, ficam muito mais felizes)

publicado às 14:39

Urticária mental

Não sou das pessoas com o sentido de humor mais apurado. Não gosto de 90% das comédias, não tenho jeito para contar anedotas nem sou especialmente fã de tal (excepto de piadas secas - adoro) e o humor de que mais gosto é o negro. 

Mas se há coisa que me tira do sério é esta mania de que tudo é permitido ao humor e que eu também tenho que achar piada. Sim, defendo que estão à vontade para dizer todas as parvoíces e asneiradas com as quais eu não concordo mas não me venham com merdas e com a célebre "ai, que sensível, estava a brincar, não tens nenhum género de sentido de humor". Até porque chamarem-me "sensível" faz com que "veja tudo negro à minha frente" e tenha que fazer um mega esforço para me controlar o que se torna completamente incompatível com o sentido de humor.

O grande problema é que as piadas/textos/opiniões que antecedem esta frase são geralmente de teor misógino, homofóbico ou racista, que são coisas que geralmente me dão urticária mental.

Além disso acho absolutamente desonesto intelectualmente a falta de opção na reacção. É que ou achas piada e "és do grupo" ou estás tramada. Se ficas calada (por achares que toda a gente tem o direito de ser imbecil) és uma "enjoadinha que não acha piada a nada". Se respondes ou te começam a explicar que "és tão sensível, estava a brincar, não tens nenhum género de sentido de humor" ou embarcas numa discussão absolutamente surreal que acaba com um "és tão sensível, estava a brincar, não tens nenhum género de sentido de humor".

E sim, acabei de ler um texto absolutamente misógino mas foi escrito por um humorista. Se tivesse sido escrito por qualquer outra pessoa ainda era possível argumentar mas assim não vale a pena porque a ideia geral é que não se está a transmitir e propagar uma ideia misógina, está-se apenas a "fazer humor".

 

publicado às 15:08

expectativas vs realidade

Cresci a pensar que o mundo estava (mais ou menos em paz), que guerras mundiais eram coisa do passado, que já não se morria de coisas como o sarampo, que o mesmo raio não caia na mesma casa duas vezes, que algumas pessoas eram eternas. Cresci a achar que éramos todos iguais, que a cor da pele não interessava nada, que havia liberdade de credo e que a humanidade estava a evoluir.

Vai-se a ver e o mundo está à beira de um ataque de nervos, o planeta está pela rua da amargura, o racismo, a homofobia e a fobia de todas as religiões (incluindo aquela em que se acredita que não se acredita em deus) -que é quase tão perigosa como o extremismo das religiões - estão na ordem do dia, há guerras por todo o lado, a violência doméstica faz vítimas todos os dias, estamos à beirinha de conflito potencialmente mundial porque um tipo anda a querer medir tamanhos com os outros gajos todos os mundo  e morrem crianças com sarampo em Portugal. 

Tenho para mim que, ou faltou qq coisa na  minha educação ou entrei num mundo paralelo sem dar conta.

publicado às 09:50

Bem-vindo à fábrica da saúde

Sou, felizmente, pouco assídua nos hospitais. Talvez por isso me tenha surpreendido um pouco com a versão "linha de montagem" de um conhecido hospital privado (nem vale a pena referir qual uma vez que são, na verdade, todos iguais).

A verdade é que ter um seguro de saúde nos poupa imenso tempo. Para além disso, eu considero que devemos, sempre que possível, não sobrecarregar o SNS por dá cá aquela palha (e este meu caso era mesmo uma palha, nem vale a pena falar nisso). Enfim, adiante.

Nas urgências, foi tudo pacífico. A triagem super rápida e a chamada para a consulta também (eu era a única pessoa a ler na sala de espera - informação absolutamente desnecessária). Quando entro no cubículo onde teria a consulta não pude deixar de reparar em várias coisas, sendo a mais flagrante a total ausência de privacidade. Uma cortina dá-nos a ilusão de privacidade mas ouvir os diagnósticos e afins dos outros pacientes rapidamente nos devolve à realidade. Tudo naqueles gabinetes está feito para deixar o paciente pouco à vontade, a começar pela tal cortina e acabar nos médicos sentados numa cadeira alta (mais alta que a dos pacientes) de forma a estabelecer a ordem das coisas.

Quando foi fazer um dos exames que precisava (já noutra clínica do mesmo grupo empresarial) fiquei estarrecida quando fui conduzida para uma ante-sala de onde ouvia perfeitamente a conversa entre o médico e a paciente anterior (que eu tinha visto ir para lá pelo que sabia exactamente quem ela era) e os cuidados que ela deveria ter se por acaso engravidasse. 

Quando entrei o "sor doutor" nem bom dia me disse, não se virou para mim, ignorou-me e continuou a fazer o relatório (ditado para que o programinha o transformasse em palavras escritas) onde me deu a conhecer, em pormenor, todas as maleitas da paciente anterior e que me permitiram (mais coisa menos coisa) interpretar as imagens que estava a ver (sim, vi os resultados dos exames da senhora). 

Eu não a conheço nem percebo a maior parte da gíria médica mas quer-me parecer que, na pressa da coisa e para manter a linha de montagem oleada em funcionamento, aceitamos passivamente (e ainda pagamos por isso) ser tratados como peças da engrenagem.

Mas tudo limpinho e cheiroso, não é cá como no SNS.

(estou sinceramente a considerar fazer uma reclamação formal).

publicado às 15:18

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