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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

Resumindo: Educação!

Estudei na escola pública, num colégio privado e num colégio com contrato de associação.

Tenho acompanhado toda a polémica à volta deste assunto com interesse e com bastante tristeza.

Na verdade sei hoje que um dos colégios onde estudei era (e é) um colégio com contrato de associação. Na prática não se notava. Não havia lá mais do que meia dúzia de pessoas que tivessem capacidade de pagar um colégio privado. Havia gente que tinha graves problemas económicos e era naturalmente aceite que não havia dinheiro para nada e que algumas colegas usassem roupa que já tinha sido de outras. Ninguém olhava duas vezes, ninguém ligava e ninguém ficou (que eu tivesse dado conta) traumatizado com isso. Lá vivi alguns dos melhores dias da minha vida. Lá ri, chorei e dei o primeiro beijo. E aprendi. E levei raspanetes.

Sou uma defensora do ensino público. Sempre fui. Por várias razões, sendo a mais importante delas a importância que o ensino público e o contacto com a realidade têm para o crescimento, para a educação, para a formação de adultos decentes. O mundo real não é o espelho dos colégios internos, é o espelho da escola pública. A mistura de gentes, de culturas, de realidades é fundamental para a construção de um ser humano capaz de enfrentar dificuldades, desafios e aventuras. As facilidades das escolas privadas (não falo, claro, do ensino que é a parte fundamental mas apenas uma parte da vida nas escolas) contribuem, no meu ponto de vista, para um défice de “desenrascanço” necessário para enfrentar a fase adulta e profissional da vida.

A situação relativa aos colégios de associação é ridícula. Compreendo que haja quem está a lutar pelos seus postos de trabalho, que haja quem queira lutar pelos seus filhos e pelo que considera ser melhor para eles. Porque é inevitável que haja perdas de postos de trabalho e é inevitável que haja quem vai ter que ir estudar para mais longe – com o decréscimo de qualidade de vida que isso implica. Ainda assim sou 100% a favor da escola pública e acho que os contratos de associação só deveriam existir quando não há outra hipótese (que por acaso é o caso do tal colégio onde estudei).

Falar de “direito à escolha” é um tiro no pé. Pôr crianças numa manifestação pelo seu direito a continuar naquela escola, a instrumentalização das crianças, é um fator que me leva a questionar a qualidade da educação naquela escola – não a qualidade do ensino do curriculum escolar, mas sim o ensino da cidadania, do respeito pelos direitos e deveres dos cidadãos e do Estado. Não consigo compreender que numa cidade (ou vila) onde haja uma escola pública haja colégios que dependem dos contratos de associação.

E não consigo, acima de tudo, compreender que haja colégios com turmas com contrato de associação e turmas sem ele. Porque se o estado paga por turma, nessas turmas não pode haver quem pague (certo?) e haver diferenciação no tipo de turmas por tipo de aluno é algo que me deixa os cabelos em pé – que raio de mensagem é passada àquelas crianças? Que há gente de primeira e de segunda????

Quanto às críticas que se têm propagado nas redes sociais e restante sociedade também me têm irritado um bocado. Demasiada crítica aos pais e professores das crianças e muito pouca ao Estado que não tem escolas públicas em quantidade suficiente, que não tem escolas públicas com qualidade suficiente e que deixou que a situação chegasse ao ponto ridículo a que chegou, que permitiu que houvesse contratos abusivos (caso contrário esta polémica não existiria), que não é capaz de elaborar um estudo à prova de bala, que não compreende que a igualdade tem que se basear nas diferenças que existem de norte ao sul do país.

Por mim gostava de viver num país apenas com escolas públicas, com escolas de qualidade, onde o filho do ricaço estivesse em pé de igualdade com o filho do mais pobre dos pobres. Gostava de viver num país onde a qualidade de ensino não dependesse do dinheiro que os pais têm disponível. Gostava que a frase “se querem andar nessa escola paguem” não fosse proferida com normalidade e com a certeza da razão. Porque eu não lhe consigo ver qualquer razão.

E não acho que este meu “sonho” seja irrealizável. Acho até que é aquele pelo qual me bato, pelo qual gostava de lutar. Basta olhar para as nossas universidades. Toda a gente se bate pelas públicas, a luta é para entrar numa pública (e se pensarem na Católica, pensem também na Nova ou no Técnico, pls). Eu gostava que assim fosse para todos os graus de ensino.

publicado às 15:42

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