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Rabiscos Soltos

Rabiscos Soltos

Feminismo bom, feminismo mau

Portugal, Mundo, 2018. O feminismo está na ordem do dia e todos, todos, defendem que o seu é o bom. Depois há o outro.

Acho que devo começar este post com um disclamer: eu defendo a igualdade de género, a violação é crime.

Pronto, disclamer feito, posso começar a criticar e vou ter toda a razão do meu lado, porque já disse e ficou registado: eu defendo o tipo de feminismo certo.

E agora posso atacar essas feministas histéricas, extremistas, que querem à força direitos, essa coisa estranha. E que se me criticarem, estão a tentar acabar com o meu direito à liberdade de expressão, de opinião (mas nunca se esqueçam que eu sou feminista, e das feministas que defende o feminismo certo).

E se está na constituição que todos têm direitos iguais, que mais querem? Já está consagrado na lei. Os direitos são iguais para todos. Ai que chatas, essa mania de mulheres e homens ganham salários diferentes para trabalhos iguais, essa mania que violência doméstica pende sempre para o lado feminino. Olhem, até conheço um homem, que ganha menos que a mulher e outro que já levou um estalo da mulher (que choninhas, pá, então mas o gajo deixa que a tipa lhe dê um estalo?). Pronto, está provado. Não é preciso essa coisa do feminismo, que é cena de histéricas nas redes sociais. Mas eu não sou machista, que cá para mim são todos iguais. Há muito homem que também é feminista histérica. Viram? Eu defendo o feminismo certo. São todos iguais.

Pronto, agora a sério. Sim, eu sou feminista mas não desse género de feminismo que precisa de se vestir de negro e vai buscar cenas ao passado. Não podemos antes fazer um ponto e zero e dizer: daqui para a frente é que é, já não há cá mãozinhas, nem bocas, nem pilas onde não devem estar? Agora mudar as regras a meio do jogo, fica mal, estraga vidas e ninguém aqui quer estragar vidas, pois não? Somos todos iguais.

Ficamos combinados, então? Defendemos o feminismo certo, mas baixinho, assim como fica bem às mulheres. Ladies, a malta quer é ladies (e se querem falar das putas na cama, só vos digo, que essas, essas, tiveram sorte e subiram na carreira. E agora queixam-se. putas, pá).

publicado às 17:02

Retomamos a programação habitual

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Pronto, este blog já voltou a ser seguro. Depois da loucura do post anterior (assusto-me sempre quando isto acontece - e isto acontece quando o Sapo, por qualquer motivo, resolve destacar um post) regressámos à paz que por aqui costuma reinar. 

publicado às 10:20

Este país, este mundo, não é para velhos

Passo os olhos pelas notícias e vejo que este ano o irs só pode ser entregue em formato electrónico. Não duvido que a maioria das pessoas da minha geração, ao ver essa notícia, pensa algo do género “ora até que enfim, no mundo online em que vivemos nem faz sentido outra coisa”. Eu, desde que comecei a minha carreira contributiva, só entrego o irs assim, via electrónica. Não sei o que é ir para as finanças entregar papéis, acho uma perda de tempo ter que ir pessoalmente fazer coisas que podem perfeitamente ser feitas através da internet.

Mas ainda assim esta notícia deixa-me com um nó na garganta porque sei que é mais uma machadada na autonomia de tanta gente.

Num país, num mundo, onde os mais velhos são um dos pilares da sociedade – temos a tendência a falar dos pensionistas como um cargo para o estado esquecendo, não só o contributo que sempre deram para construir a sociedade que temos, como o património que têm assim como o suporte que dão a filhos e netos que não ganham o suficiente para as suas necessidades.  Ora boa parte destes pensionistas têm a sua rotina e o controlo das suas vidas – e isso inclui fazer e entregar o irs.

Podem dizer-me que “os filhos e netos que os ajudem” e sim, é muito importante darmos apoio aos nossos velhos, ajudarmo-los a viver num mundo que todos os dias lhes é roubado porque a parte a que não conseguem aceder – a virtual – lhes está vedada. Está-lhes vedada, não por culpa ou escolha deles mas porque a idade já não lhes permite aprender o suficiente para tal.

Podia agora falar do fecho dos correios que vai obrigar a que estes velhos sejam obrigados a deixar de ir receber a sua pensão pessoalmente – e que lhes vai retirar autonomia.

Podia falar de todos aqueles que não sendo velhos, nem reformados, não têm apetência para a informática, para as virtualidades e que vão ter que pagar a quem lhes faça isto – e que não tendo dinheiro vão acabar por escolher contabilistas e solicitadores de vão de escada que, com ou sem intenção, os vão enganar.

Podia falar de tantas coisas que me tenho apercebido nos últimos tempos e que me leva a acreditar no título deste post. Este país, este mundo, não é para velhos.

publicado às 12:21

expectativas

Gerir as nossas expectativas é sempre difícil. Quando esperamos demasiado de um livro, de um filme, de alguém, corremos o risco de perder o melhor que ali existe porque estamos à procura de mais. Muitas vezes nem sequer estamos à procura de melhor, estamos simplesmente à procura de mais, de algo diferente.

Aconteceu-me demasiadas vezes. Ainda acontece, para dizer a verdade. Desiludirmo-nos é uma das coisas que mais entristece. Pior que isso é desiludirmos os outros.

Quantos erros não cometemos porque, ao tentar desesperadamente atingir as expectativas daqueles de quem gostamos, nos perdemos de nós mesmo e nos estatelamos ao comprido? 

Eis uma aprendizagem que me tem sido difícil: controlar as expectativas, agir ou falar sem ter em conta aquilo que esperam de mim, mesmo que isso me traga dissabores, mesmo que isso sirva de um filtro não desejado.

Por vezes preciso controlar a minha impulsividade e dar espaço aos outros. 

Lembro-me muitas vezes da oração da serenidade que tento pôr em prática em muitas versões da minha vida, principalmente no que às expectativas dos outros diz respeito.

Que tenha a  Serenidade
para aceitar as coisas que não posso modificar,
Coragem para modificar aquelas que posso
e Sabedoria para reconhecer a diferença.

Tenho uma amiga que põe isto de uma forma que adoro. Segundo ela  (mau-feitio que só visto) as expectivas dos outros gerem-se com a política do cornetto: "quem não gosta, não gosta, quem gosta, gosta sempre". O CR no euro também pôs as coisas de uma forma um tanto ou quanto crua mas perfeita: que sa foda.

Bom 2018 para todos

publicado às 13:54

Falemos de... liberdade de expressão

Confesso-vos, estou um bocado aterrorizada. Medinho, cagufa daquela séria. 

A verdade é que tenho visto muita gente, miúdos, jovens, adultos, homens, mulheres, de tudo um pouco, a defender limites à liberdade de expressão. E isso aterroriza-me.

Vamos lá pôr os pontos nos iiis.

Defender a liberdade de expressão sem limites não é defender que que se pode dizer tudo IMPUNEMENTE. Quer apenas dizer que podes dizer tudo o que não configura crime sem ir de cana ou levar um tiro nos cornos. E que podes dizer o que configurar crime e ser condenado por isso por quem de direito.

Defender a liberdade de expressão sem limites não significa que concordes com todas as barbaridades que são ditas por aí, significa que respeitas os outros o suficiente para os considerar grandinhos o suficiente para ter bom senso e para (principalmente para) aceitar as consequências dos seus actos e palavras.

Preocupa-me que se ponha sequer a hipótese de voltar a ter uma sociedade com censura.. Preocupa-me que haja quem acha quem o defenda com unhas e dentes. Preocupa-me mesmo muito.

 

 

 

publicado às 15:10

Nunca sei se a ignorância é uma bênção ou se é apenas muito atrevida

As putas das certezas que temos em teoria......caem por terra assim que a realidade entra em acção.

Decisões que nos parecem fáceis, em teoria, questões sobre as quais temos uma opinião, uma certeza, e que às vezes até votamos em forma de referendo e, com a democracia em vigor,  a que damos força de lei transformam-se em dúvidas, em temas em que não queremos pensar.

Quem tem a capacidade de decidir sobre o direito que uma mulher tem de fazer um aborto ou de alguém optar pela eutanásia? Quem vê de fora, analisa, imagina o "e se fosse comigo"? Quem tem a distância suficiente para opinião de forma fria e objectiva? Quem passa por isso, quem tem que, efectivamente, tomar a decisão mesmo não o querendo fazer?

Já tive tantas certezas e tenho tantas dúvidas agora.

Nunca sei se a ignorância é uma bênção ou se é apenas muito atrevida.

 

publicado às 12:53

RIP tons de cinza

Parece que os vários tons de cinzento estão mesmo fora de moda. Não me parece nada bem.

Sempre gostei várias cores. E de vários tons dentro da mesma cor. Mas actualmente parece que apenas estão na moda o preto e o branco. Não há misturas. 

O mundo está ficar sem tonalidades diferentes. 

A todo o mundo temos que decidir: estamos contra ou a favor? Branco ou preto? Se a maioria (ou a maioria que está mais perto de nós) defende o preto então temos que ter cuidado: defender o cinzento escuro é já um crime de "lesa pátria" e é basicamente o equivalente a dar o corpo às balas. O melhor nesse caso é prepara a armadura e partir para a guerra porque os ataques vão começar.

Pensar e ter uma opinião ligeiramente diferente é cada vez mais perigoso. 

Eu tenho sempre este problema: gosto do cinzento.

Acho que até as pessoas de quem não gosto podem e têm opiniões com as quais concordo, sabem coisas que eu não sei e me podem ensinar. Apesar de eu não gostar especialmente delas, nem as achar boas pessoas.

E as pessoas de quem gosto podem e têm opiniões com as quais não concordo.

É verdade que as pessoas de quem gosto têm valores muito parecidos com os meus mas (surpresa das surpresas) nem sempre os defendem da mesma forma que eu.

Mas uma coisa é certa: as pessoas de quem gosto aceitam que eu, às vezes, não tenha a mesma opinião, não seja tão entusiasta da mesma luta, não me prenuncie da mesma forma sobre o mesmo assunto. É que se há coisa que não suporto em alguém é que esse alguém veja o mundo em apenas duas cores: branco e preto.

publicado às 18:52

Palavras

É recorrentes, nas redes sociais, a discussão do "piropo", da sua utilização e (possível) criminalização. Não me dou ao trabalho de me meter em tais conversa (são, na maioria das vezes "conversas de surdos") mas, no outro dia, achei divertido ir assistindo a uma delas. Eram dois homens, um que dizia que um piropo tinha o objectivo de elogiar (e obviamente dava dois ou três exemplos de piropos inócuos e fofinho), o outro dizer que nenhuma mulher gostava de ouvir qualquer piropo, por mais fofinho que fosse, porque isso era uma intrusão no seu espaço pessoal. (podem imaginar como a conversa evoluiu, escalando para níveis ridículos)

Fiquei ali, a assistir à conversa e a pensar que ambos tinham e não tinham razão (e que nenhum deles ia aceitar tal coisa). É muito difícil explicar que na história do "piropo" contam mais as intenções que as próprias palavras. Claro que não estou a desvalorizar as palavras, há coisas que não são aceitáveis entre desconhecidos ou simplesmente conhecidos e que ditas a crianças são absolutamente revoltantes. As mesmas palavras, um piropo fofinho e inócuo dito com intenção de magoar, de diminuir, de humilhar vai fazê-lo em 99% dos casos.  O mesmo piropo fofinho e inócuo dito com intenção de elogiar e de mimar vai ,em 99% dos casos, originar pelo menos um sorriso.

Mas é quase impossível criminalizar a intenção, porque as palavras retiradas de contexto, retiradas do que se intui atrás das palavras, são meras palavras, que podem ser interpretadas consoante a intenção do leitor que, em 99% dos casos, a irá interpretar consoante a sua própria consciência e opinião sobre o assunto.

publicado às 16:55

cenas avulso

Normalmente gosto de chuva. Gosto de chuva mesmo quando não me dá jeito que chova. Gosto de chuva quando ando à chuva, com ou sem chapéu-de-chuva. Aliás, geralmente ando à chuva sem o tal chapéu por me esqueço deles em todo o lado. Esta semana ainda gosto mais de chuva do que o habitual. Gosto desta chuva que será uma bênção para tantos. 

 

Estou a ficar cada vez mais farta de pessoas. Raramente é possível ter uma conversa sem que esta se torne uma luta inconsequente.

 

Não interessa o que digas, vai haver alguém a insultar-te. Não interessa que os teus argumentos sejam válidos e mais do suficientes para "ganhar" a discussão. Na verdade nem sequer interessa que tenhas razão. Nunca vais  conseguir rebater o "porque sim" ou a acusação de seres da oposição (nem sequer interessa de quê).

 

A máxima "se não estás por mim, estás contra mim" é lei hoje em dia.

 

Ter convicções/opiniões não é bom para a saúde. Pelo menos para a mental. É que se tens o azar de ter uma opinião diferente, mesmo que ligeiramente, daquele "fazedor de opinião" prepara-te para ser insultado. Se responderes e não mudares de opinião és incluído num grupo de qualquer-coisa-nazi, que é um dos pseudo-insultos preferidos das redes sociais.

 

Ah e se não estás nas redes sociais vais descobrir que os teus amigos já não se lembram que existes. Quando lhes telefonares vão ficar muito surpreendidos por constatar que ainda estás vivo uma vez que não respondeste à "pool" que fizeram numa qualquer rede social. 

 

No meio disto tudo, se te lembrares que, na verdade, aquilo que dizes e sentes só tem importância para ti e vá, no máximo, 5 outras pessoas, vais perceber que na verdade nada de tudo o que escrevi anteriormente em grande importância e que, no fim do dia, é aquele momento de paz total que tiveste quando paraste na rua e sentiste a chuva a molhar-te a cara (e os óculos). 

publicado às 14:41

O mundo é Lisboa, o resto são arredores

Precisava marcar uns exames médicos e pensei que seria mais fácil marcá-los em Lisboa. Por várias razões que não vêm ao caso, assumi que, havendo muito mais escolha por aqui a coisa se daria mais facilmente.

A primeira data que me dão é 28 de Outubro.

Ok, bora lá ver se consigo melhor

segunda data: Dezembro (não quis sequer saber o dia)

terceira data: 22 de Novembro

...

...

Ok, bora tentar em XXXX (0 esperança):

- Qual é a primeira data que tem disponível para fazer...?

-a primeira data... amanhã, quer?

- Epá, estou em Lisboa, amanhã não consigo, qual é o primeiro sábado que tem disponível?

-Este, pode ser às 11h30?

-Marcadíssimo. 

 

Sim, sim, Lisboa é um espectáculo e a província um atraso de vida!!!! 

Ah, são felizes e não sabem, ou provavelmente sabem, nós por cá é que temos a mania que vivemos na capital e que temos tudo e vai-se a ver é isto. 

publicado às 10:57

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